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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A actual Internet

Não vai há muito tempo coloquei aqui um post ao artigo de Chris Anderson, editor da famosa revista Wired onde o mesmo, explicava do seu ponto de vista a evolução da Internet nos últimos vinte anos. A minha principal consideração relacionada com o artigo, na altura, foi em concordar que embora as pessoas tenham acesso a serviços e produtos gratuitos através da Internet, a rotina de todos os dias vai ser sempre um obstáculo à obtenção desses mesmos produtos e serviços. Porque a facilidade com que se obtêm um serviço ou produto pago, não é o mesmo quando eles são gratuitos. Mas no momento estamos a passar uma fase em que a Internet tal como a conhecemos pode sofrer transformações radicais e que levam a uma autêntica segmentação. Nesse sentido veio o responsável da Telefónica, Júlio Linares referir que:


“O principal problema com que se defronta o sector passa por uma grave discrepância entre o crescimento do tráfego, o custo da rede, as receitas que gera e a tensão no investimento”


O conselheiro delegado da Telefónica fala de assimetrias entre os cibernautas que mais utilizam a rede e aqueles que têm uma utilização mais reduzida. Explicando que a solução passava por oferecer serviços de maior eficácia aos diferentes clientes. Na minha opinião, este protótipo de modelo, é uma discussão impertinente porque o que os diferentes clientes ganham é o fim do princípio da neutralidade que a Internet oferece. Porque o principio da neutralidade parte do pressuposto que todas a informações que são passadas na rede devem ser tratadas da mesma forma, navegando sempre à mesma velocidade.  Com o fim da mesma iremos assistir a uma segmentação e descriminação na utilização da rede. 

Um outro ponto importante é olhar para o gigante monopolista da rede, a Google. Num artigo recente do New York Times, William Gibson, também criador do termo ciberespaço, apontou a sua opinião sobre o gigante da Internet. Nas suas palavras a Google descreve-se como: 

"central and evolving structural unit not only of the architecture of cyberspace, but of the world." 
Gibson fala das alegações de Eric Schimdt, CEO da empresa, referindo-se aquele à forma como as pessoas utilizam a Internet com recurso à ferramenta Google, referindo mesmo que elas não querem que a Google responda às suas perguntas, mas antes pelo contrário que a Google lhes diga o que devem fazer a seguir. Este parece um cenário preocupante, que Gibson considera que existe, mas com algumas qualificações complicadas: 
"Is he saying that when we search for dinner recommendations, Google might recommend a movie instead? If our genie recommended the movie, I imagine we’d go, intrigued. If Google did that, I imagine, we’d bridle, then begin our next search."
O que é importante lembrar é que a Google não é nossa, embora possa parecer confuso pois nós somos os principais fornecedores da empresa em todas as matérias que ela precisa para subsistir. Uma mera procura sobre qualquer informação basta. É aqui que Gibson merece toda a minha atenção quando afirma que isto é o tipo de coisa que Estados-nações e impérios faziam antes. Porém, antes impérios e estados-nações  não eram órgãos da global percepção humana. Contudo Gibson adverte:
They had their many eyes, certainly, but they didn’t constitute a single multiplex eye for the entire human species.
Isto tudo é um puro contraste entre o que se quer na teoria e o que existe na prática. Por um lado temos o princípio da neutralidade que evoca uma Internet mais justa e equitativa. Por outro, temos a divergência que existe em aceder a serviços e produtos gratuitos na rede, que acabam por contribuir para o capitalismo desmesurado. Por exemplo, todos os produtos e serviços da Google são gratuitos, ou pelo menos pensamos que são, já sobre isso aqui falei. Contudo todos os lucros brutos da empresa não são distribuídos pelos seus principais fornecedores. No meio de tudo isto as palavras de Eric Schmidt  ao Wall Street Journal acerca do futuro do procurar não devem deixar de ser motivo de preocupação sobre a actual e futura Internet:
As you go from the search box [to the next phase of Google], you really want to go from syntax to semantics, from what you typed to what you meant. And that's basically the role of [Artificial Intelligence]. I think we will be the world leader in that for a long time.
O que é mais um contraste, quando temos protagonistas como Patrick Finch a falar sobre a Open Web, e refere que o que é importante sobre a Web não são as qualidades intrínsecas da tecnologia, mas sim as acidentais. 
 




  

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Web está morta


Num extenso artigo saído na edição de Setembro da Revista Wired, o seu editor Chris Anderson explica-nos de que forma crê como a Internet evoluiu desde à vinte anos e como está a mudar do paradigma do procurar para o de obter. Um artigo obrigatório para todos os que têm dificuldades em diferenciar a Web da Internet. Como Anderson explica a determinada altura: 
Blame human nature. As much as we intellectually appreciate openness, at the end of the day we favor the easiest path. We’ll pay for convenience and reliability, which is why iTunes can sell songs for 99 cents despite the fact that they are out there, somewhere, in some form, for free. When you are young, you have more time than money, and LimeWire is worth the hassle. As you get older, you have more money than time. The iTunes toll is a small price to pay for the simplicity of just getting what you want. The more Facebook becomes part of your life, the more locked in you become. Artificial scarcity is the natural goal of the profit-seeking.
A questão está em que mesmo que a Internet disponibilize muitos serviços gratuitos, no final  a rotina do dia à dia vai sempre sobrepor-se e assim iremos sempre escolher a maneira mais fácil de os obter.  Tudo isto leva apenas ao crescimento exponencial do capitalismo. Um situação que não é nada de novo como Anderson explica no artigo. 

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Nova Economia


Encontro-me nos laboratoarios informaticos da UAB enquanto escrevo este post. Digo isto, porque pela primeira vez me apercebi que os teclados dos computadores sao diferentes dos que estou habituado a utilizar em Portugal. Por essa razao, nas palavras nao vao aparacer quais-queres acentos gramaticais. Isto vai tornar a leitura um pouco dificil para aqueles que lerem este post.
A razao do mesmo e um livro que acabei de ler nos dias transactos. O autor e Chris Anderson, ja conhecido por outro livro: The Long Tail. Na obra o autor tenta demonstrar como no contexto actual a industria do entretenimento esta a migrar do mundo fisico para o mundo digital. Sitio onde surgiu uma cultura diversificada e novos modelos de negocios que focam-se em vender pouco a muitos. Neste sentido, Chris Anderson no livro que eu quero falar (Free) analisa como a internet proporcionou um novo mercado de negocios baseados no conceito mercado livre e gratis.
Recorrendo a analise de varias empresas que conseguiram fazer da norma "pouco para muitos" o seu principal metodo de trabalho e com isso tornarem-se grandes multinacionais, Chris Anderson aborda no seu livro o conceito da Gift Economy. A Wikipedia e um dos melhores exemplos que se pode dar sobre aquele conceito, pois foi nela que encontrei a seguinte informacao e pela qual nao tive que retribuir nada em troca, ou quase nada....

In the social sciences, a gift economy (or gift culture) is a society where valuable goods and services are regularly given without any explicit agreement for immediate or future rewards (i.e. no formal quid pro quo exists).[1] Ideally, simultaneous or recurring giving serves to circulate and redistribute valuables within the community. The organization of a gift economy stands in contrast to a barter economy or a market economy. Informal custom governs exchanges, rather than an explicit exchange of goods or services for money or some other commodity.
Various social theories concerning gift economies exist. Some consider the gifts to be a form of reciprocal altruism. Another interpretation is that social status is awarded in return for the gifts.[2] Consider for example, the sharing of food in some hunter-gatherer societies, where food-sharing is a safeguard against the failure of any individual's daily foraging. This custom may reflect concern for the well-being of others, it may be a form of informal insurance, or may bring with it social status or other benefits.

Um dos maiores exemplos do que e abordado por Chris Anderson, e tambem analisado no livro e o lancamento do album In Rainbows por parte da banda Radiohead  em 2007.  Atraves do seu site a banda pos ao dispor dos interessados o download gratuito do album.
Os que quisessem, poderiam efectuar um pagamento monetario do valor que achassem apropriado. A primeira vista, a ideia que surge é que o album foi descarregado sem alguem alguma vez ter dado um valor monetario pelo mesmo e que a banda não teria qualquer retorno lucrativo. Contudo, e como Chris Anderson nos demonstra na sua analise, o lucro dos Radiohead manifestou-se na publicidade que obtiveram pelo acto inedito, o que pela sua vez se reflectiu na possibilidade de dar mais concertos, bem como na criação de um misticismo e feticismo pela edicao do album na forma tradicional com uma serie de extras atractivos.
Em suma, tratou-se de uma estrategia de marketing que resultou muito bem. O que nos mostra que o gratuito é apenas uma ideia errada. Por como disse anteriormente, não tive que pagar quase nada pela informaçao que retirei da Wikipedia. Contudo, se pensar que de uma a forma mais objectiva, o facto de me encontrar na UAB deve-se a eu ser estudante universitário e para isso tenho que pagar propinas durante 10 meses...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Cinema, anos ZERO?


O Youtube vai entrar no negócio do aluguer de filmes. Quando ví esta notícia, interroguei-me sobre o estado do cinema depois do aparecimento deste medium que mudou o paradigma audiovisual. Não só porque banalizou ainda mais a imagem em movimento, mas sim porque a cada minuto são descarregados vinte minutos de vídeos para o Youtube. Decidi pesquisar um pouco. Percorri várias revistas de especialidade e vários blogues sobre o assunto, mas foi no Ípsilon que encontrei um artigo que fala sobre o estado da sétima arte nos dias da revolução digital. Um artigo a lêr pelos fanáticos de cinema. Dá que pensar.... Principalmente na transformação que o mundo sofreu nos últimos anos. Este paragrafo sintetiza esta questão:


O cinema chegou a 2009, com "Avatar", a anunciar uma "nova era", final perfeito para uma década obcecada com a mudança. E nós, espectadores: o que é que vimos nos "anos zero", o que foi isto? Outra boa pergunta: o que é um espectador de cinema? Que venha a década nova. "No surrender", como na canção de Bruce Springsteen

Segue o artigo na íntegra.

1. Uma década é uma unidade de tempo tão arbitrária como outra qualquer, um utensílio fornecido pelo calendário para tentar impor uma "ordem" ou, como nas narrativas, um "princípio, meio e fim" àquilo que, na imparável dinâmica das coisas, não possui nada disso. Fazer "balanços", impor um princípio de ordenação, encontrar uma "narrativa" que se distinga de outras, é um impulso humano antes de ser um impulso cultural (ou é um impulso cultural porque é um impulso humano). Não é mau, não é bom, é o que é. Um tipo de arbitrariedade para tentar domesticar a arbitrariedade "cósmica". Se não esquecermos isto, pode-se esperar do exercício que seja minimamente proveitável. Arbitrário por arbitrário, faz tanto sentido falar do decénio 1997-2007 como de 2001-2010 (como, tecnicamente falando, devia ser). Mas por que não, e viva a força dos números redondos, os "poderes do 10" e o "mistério do zero", falar de 2000-2009? Os segundos "anos 00" da história do cinema: o simbolismo é inescapável, para mais numa década em que nos foi sendo garantido que tudo - da política, ao jornalismo, ao cinema - estava a mudar ou já tinha mudado.

No princípio da década o 11 de Setembro "mudou" o mundo, e no final da década foi a prometer "mudança" que um novo presidente foi eleito nos EUA. O cinema chegou a 2009, com "Avatar", a anunciar uma "nova era", um "cinema do futuro", final perfeito para uma década obcecada com a mudança. E nós, espectadores (outra boa pergunta posta pela década: o que é um "espectador de cinema"?), o que é que vimos nos "anos zero", o que foi isto?

Vale a pena ensaiar uns passos por esse sinuoso caminho, na certeza de que ficaremos longe de o esgotar e, outra advertência prévia, que para uma visão mais clara e seguramente mais completa dos "anos zero" do século XXI o melhor é dar um salto a 2030. O tempo é severo mas é dele que vem a luz e, como sabem todos os que gostam de cinema, é o futuro que anuncia o passado e não o contrário.

2. Houve uma coisa que sempre, ou desde cedo, tinha sido sólida e ruiu durante os "anos zero". A boa pergunta do parágrafo anterior: o que é um espectador de cinema? Em 2010, passar os olhos pelos "anos zero", e particularmente pela indústria americana durante este período, não pode ignorar isto, tanto mais que alguns dos passos decisivos dessa indústria ("Avatar", mais espectacularmente) foram uma resposta. Mesmo durante a grande crise provocada pela expansão da TV, nos anos 50 e 60, as coisas continuaram relativamente claras: sabia-se o que era um espectador de cinema e o que era um espectador de televisão. Qualquer deles pagava, de uma maneira ou de outra, para ver filmes, para ver televisão, para ver filmes na televisão - desde a primeira sessão dos Lumière que o "espectador de cinema" era aquele que pagava para ver um filme. Os "anos zero" trouxeram um novo tipo de espectador, o que vê filmes mas não paga. Faz "downloads", duplica, copia, vê os filmes mas não paga - é um espectador de cinema que deixou de contar, economicamente, como "espectador de cinema". Só existe como buraco (de milhões) nas contas de Hollywood. O filme de James Cameron, renovando a "experiência da sala" (para preservar, chamemos-lhe, a "experiência da caixa") através das 3D, é a solução milagrosa para re-chamar os tresmalhados e garantir a manutenção da indústria como a conhecemos ou é um estertor a prenunciar uma transformação ainda inimaginável? Pese o optimismo das máquinas de "marketing" (cuja função é promover o optimismo) e as certezas dos cretinos das caixas de comentários (cuja função é promover o "marketing"), "Avatar", no que toca ao "cinema do futuro", deixa mais perguntas do que respostas.

3. O espectador de cinema dissolveu-se como entidade económica estável porque a tecnologia chegou a um ponto culminante das possibilidades da sua própria vulgarização. Qualquer pessoa com um computador e umas noções rudimentares de circulação pela Internet tem os filmes que quer (e de resto nem precisa da Internet). A tecnologia digital, "maravilha" durante as últimas décadas, revelou nos anos 2000 a sua faceta "monstruosa". A "luz e a magia" deixaram de ser "industriais", como na empresa criada por George Lucas, e passaram a ser "domésticas". Não é a mesma coisa? Talvez não, mas não é seguro que não se trate apenas de um capítulo da mesma história. Só que antes discutia-se o digital na origem, na raiz, na essência da imagem que era captada ou era interposta na imagem captada: o vídeo e a película, o "efeito especial". Os "anos zero" impuseram a discussão do digital no momento da chegada e da recepção, em termos (e numa escala) em que nunca tinha sido posta. Do digital como modo de fabrico ao digital como modo de consumo. Do digital como facto tecnológico ao digital como facto cultural. É um círculo demasiado perfeito para que se possa dizer que não se trata da mesma história. Fenómenos como o YouTube encarregaram-se de garantir o fecho do círculo. Que tem o YouTube a ver com o cinema? Quase nada, ou quase tudo, com menos contradição do que parece. Há muitos anos que o cinema não estava "só" (para usar a expressão de Godard nas "Histoire(s) du Cinéma"), mas nunca esteve tão acompanhado como nos anos 2000, tão arrastado para dentro duma "cultura da imagem", enorme "bulldozer" de indiferença, com que ele só marginalmente alguma vez teve a ver. Como, numa estranha premonição de todo este excesso de imagens dos "anos zero" (e num estranho luto?), a "Branca de Neve" de João César Monteiro (ah, o escândalo), pareceu querer assinalar, logo em 2000.

4. Curiosamente (ou previsivelmente) o cinema dos "anos zero" trabalhou a integração do digital, em todos os seus estados, na sua própria tradição. Enrijecido por cem anos de periódicas ameaças de "morte", o cinema quis mostrar que a morte da película (apesar de tudo, também ela mais resistente do que se previa nos anos 90) pode ser uma "libertação", assim como uma cobra se livra da pele velha e a troca por uma nova. Vimos grandes mestres, mestres vindos de outro tempo, como Ingmar Bergman e a sua "Sarabanda", atirarem-nos uma última espreitadela, dominando o vídeo digital como se a questão dos suportes não passasse de um detalhe, e em última análise provando que não passa de um detalhe. Logo a abrir, em 2000, Pedro Costa estreou "No Quarto da Vanda", um dos mais influentes filmes da década (despertou vocações, gerou inspirações e imitações), apontando um caminho, estético e metodológico (que o próprio Costa ainda não parou de explorar, vide "Ne Change Rien"), para o casamento entre o cinema (como tradição) e o digital (como suporte tecnológico). O mesmo Costa que, de resto, nos deu (em vídeo digital) um dos últimos três grandes filmes sobre a película cinematográfica, "Onde Jaz o Teu Sorriso", com os Straub. (Os outros grandes filmes sobre a película foram de John Carpenter, "Cigarette Burns", ainda mais paradoxal visto que, episódio de uma série de TV, dele não foram tiradas quaisquer cópias em película; e claro, o "À Prova de Morte" de Tarantino, furioso e reaccionário manifesto em favor do arcaísmo e do analógico).

5. A questão película/digital também é um problema económico, pelo que só surpreende a quem tenha passado estes anos com os olhos postos em Hollywood e na "conversão da indústria" que essa conversão tenha arrancado, de facto, das margens, estéticas e geográficas, onde o dinheiro é escasso e os orçamentos se fazem a uma escala diferente. No Irão, Abbas Kiarostami não estreou, durante os anos 2000, nada feito em película, antes se obstinando, em filmes como "Ten" e, sobretudo, "Five Dedicated to Ozu" (o título, neste contexto, já é "todo um programa"), em explorar o vídeo digital como meio de ultrapassar a "vocação narrativa" do cinema (e conduzi-la, de facto, para um terreno próximo da "vídeo arte").

Na Rússia, Aleksandr Sokurov serviu-se das possibilidades de "armazenamento" das câmaras de vídeo digital para concretizar, livre do constrangimento causado pelos 12 minutos das bobinas de 35mm, o sonho de Hitchcock em "A Corda": um plano-sequência de hora e meia pelos corredores do Hermitage, sem os truques que Hitchcock teve que empregar. Foi "A Arca Russa", "tour de force" entre os mais ousados e "vanguardistas" da década, por acaso ou não (na sua relação com a história russa) mais um exemplo em que o "moderno" foi posto ao serviço de uma reflexão sobre a "tradição". O filme de Sokurov também põe em evidência a questão da invenção de um "peso" para estas novas câmaras digitais: a sua resposta em "Arca Russa" (mobilidade, flutuação, suspensão da gravidade) aproxima-o de Michael Mann (quem, na América "mainstream", mais aprofundou o trabalho sobre o vídeo digital, em filmes como "Miami Vice" e "Inimigos Públicos"), tanto quanto o afasta (a ele e a Mann) da resposta de Pedro Costa, que submete a sua câmara a uma gravidade descomunal, impondo-lhe um "peso" que ela de facto não tem (o que, para além de ter origem no facto de Costa ser um cineasta do plano e do enquadramento, configura uma espécie de ética, e de resistência ao próprio digital). O que aproxima Mann e Costa, evidentemente, é a crença na luz como coisa a redescobrir: que ninguém diga que já tinha visto a luz da "Vanda" ou a luz de "Miami Vice". Mencionar, ainda, já que se falou de "resistência", o espantoso trabalho sobre as possibilidades plásticas do digital, conduzidas em direcção ao minimalismo, do espanhol Albert Serra em "O Canto dos Pássaros", o filme mais "2D" desde há muito. Em "double bill" com "Avatar" mostraria bem como um filme pode ser "chato" sem ser "achatado", e "achatado" sem ser "chato".

6. Ainda a propósito da questão económica, importaria referir que o eterno "parente pobre" dos géneros cinematográficos, o documentário, sobreviveu aos 2000 em grande parte graças ao digital. Para o bem ou para o mal, ou melhor dizendo, para o bem e para o mal (não se pode querer ter só uma coisa). As propriedades "domésticas" dos aparatos digitais (novo sentido para a "câmara-stylo" de Astruc) propiciaram até uma nova voga do registo diarístico, pessoal e quotidiano, de que os exemplos mais conhecidos serão os filmes de Agnès Varda ("Os Respigadores e a Respigadora", a abrir a década, e "As Praias de Agnès", a fechar).

7. O caos de um mundo encharcado em imagens. O YouTube. O 11 de Setembro (em rigor, e num sentido que levaria demasiado tempo a explicar, a televisão desse dia devia entrar numa lista do mais "relevante" da década), cujas imagens assombraram o resto da década, inclusive no YouTube, e muito para além da América (o mais genial contracampo do 11 de Setembro é o plano final do "Filme Falado" de Oliveira, e pouco que importa que o filme seja o seu mais fraco). Esta ameaça difusa que vem da sensação de o 11 de Setembro ter sido dissecado "clandestinamente", com imagens de telemóveis, de câmaras de segurança, e etc. Para uma geração inteira (para mais do que uma geração), correspondeu à noção de uma perda da inocência. Uma câmara de telemóvel não pode ser um brinquedo se serve para registar o mais traumático assassínio em massa de tempos recentes. O vídeo - o vídeo caseiro, vulgar de Lineu - como instrumento dúbio, invasor e invasivo ao mesmo tempo, como aparelho capaz de construir, por "roubo", uma verdade para além das verdades oficiais. Uma menção para todos os filmes que foram atrás deste "zeitgest" tão "anos 2000". O "Caché" de Haneke e o seu par perfeito, o "Afterschool" de Antonio Campos. O "Redacted" de Brian de Palma, sobre a guerra do Iraque, e a sua versão melhorada, mais abstracta e mais paródica (mas muito menos vista e muito discutida, "são zombies, senhor"), o "Diário dos Mortos", dessa velha "térmita" do cinema americano que é George Romero.

8. E todos, velhos e novos, solitários quase sempre, obstinados por obrigação, que inauguraram ou continuaram as suas obras como se nada fosse. O velho Rohmer, que na "Inglesa e o Duque" des-diabolizou e domesticou o "efeito especial" (digital...), transformando-o em cartão pintado. James Gray e Wes Anderson.. Oliveira. Rivette. Godard, a transformar a amargura em coisa bela de se ver. Kaurismaki, sozinho e maltratado que nem um cão vadio, autor dos dois filmes mais comoventes da década ("Um Homem sem Passado" e "Luzes no Crepúsculo"). A majestade magoada de Eastwood. Outros, muitos outros. Aquilo a que dantes se chamava os "autores". Estão quase varridos das salas de cinema portuguesas. São zombies, senhor, e encontram-se numa das cinquenta salas dedicadas ao Harry Potter.

9. Que venha a década nova. "No surrender", como na canção de Bruce Springsteen.


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um apelo do fundador da Wikipédia, Jimmy Wales


Hoje, eu estou a pedir uma doação para a ajudar a Wikipédia
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Obrigado por usar a Wikipédia. Você faz parte desta história: por favor, faça uma doação hoje.

Jimmy Wales

Fundador da Wikipédia

Reaprender

 Nunca é fácil quando conhecemos uma pessoa. Principalmente se por essa pessoa começarmos a sentir sentimentos.  É uma roda viva de emoções ...