sexta-feira, 16 de março de 2012

O génio da modernidade

Embora já tenha a versão digital do livro de Walter Isaacson sobre a biografia de Steve Jobs (2011), acabei por encontrar na PBS um documentário denominado One Last Thing (2011) que de uma forma mais agradável e resumida nos retrata o homem que mudou o mundo através da tecnologia nos finais do século XX e início do século XXI.


O que encontramos no documentário em muito será o que poderá ser o conteúdo do livro. No entanto, pelo que me foi permitido saber porque quem já leu o livro, haverá muito mais a dizer. Contudo o que me interessa aqui analisar é este documentário e não o livro, porque também ainda não o li.
O documentário está todo concentrado em Steve Jobs e todas as criações que a sua mente brilhante foi capaz de produzir. De alguma forma pode-se resumir linearmente na escrita da seguinte forma: Apple, Xerox, NeXT,  iMac, Pixar, iPod, iTunes e finalmente iPad. 
Dito de outra forma são todos os nomes das tecnologias em que ele esteve envolvido e criou e se tornaram produtos que mudaram modelos instalados nas pessoas no final do século XX e início do século XXI.
Porém, existem outros aspetos interessantes que o documentário aborda. Por exemplo, a caligrafia e o budismo como influências na construção dos produtos que Jobs idealizava. O facto de sabermos que inicialmente a sua primeira aposta empreendedora foi uma companhia de telefones. Que ele e Bill Gates foram grandes amigos, mas depois a rivalidade entre a Microsoft e a Apple os levaram a tornarem-se apáticos um com o outro. Algo que poderá ser melhor percebido na única entrevista que deram juntos.


Por outro lado, conhecemos melhor a sua personalidade que se caraterizava por ser extremamente exigente, empreendedor, inovador, génio e de ruptura.  E isso é muito bem notado no desenvolvimento da narrativa que faz uma retrospetiva da biografia do homem que mudou o quotidiano do trabalho, lazer e comunicação humana. 
Além daquilo tudo encontramos testemunhos diretos de "Ronald Wayne, co-founder of Apple Computer, Co. with Jobs and Steve Wozniak; Bill Fernandez, who is credited with introducing Jobs to Wozniak and was also Apple Computer's first employee; Robert Palladino, calligraphy professor at Reed College whose classes Jobs acknowledged with inspiring his typography design for the Apple Mac; Walt Mossberg, who covered Jobs as the principal technical journalist for The Wall Street Journal; Dean Hovey, who designed the mouse for Apple; Robert Cringley, who interviewed Jobs for his documentary Triumph of the Nerds; and Dr. Alvy Smith, co-founder of Pixar Animation Studios, which Jobs acquired in 1986."
Para quem quiser saber mais um pouco sobre Steve Jobs este documentário é um bom recurso para isso. Morreu a 5 de Outubro de 2011.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Agnosticismo é uma benção

Demorei mais de um ano a ler o livro de Richard Dawkins The God Delusion (2006). Tal aconteceu, por variadas razões, mas a principal é que a narrativa do livro não me foi cativando e, assim, lia e quando o punha de lado, passava muito tempo até pegar nele outra vez. Contudo, uma teimosia levou-me a ler o livro até ao fim, o que acabou por acontecer hoje.




Creio que a teimosia estava a tentar encontrar no livro alguma resposta mais concreta para a minha opinião sobre a não existência de deus, isto é, eu sou ateu, ou melhor era. Acabei foi por encontrar uma tese que melhor nos explica a religião como um todo.
Muitas vezes essa opção, ser ateu, pode ser um preconceito, pode ser vista pela sociedade - maioritariamente católica - como algo incomum -, ou até como já aconteceu na Idade Média, obra do diabo. E por isso a Inquisição em nome do seu deus, fez das maiores atrocidades - além das Cruzadas e outras - que a igreja alguma vez cometeu.
Porém, ao ler o livro, e pelos argumentos lá apresentados por Dawkins, comecei a notar que ser ateu afinal pode ser motivo de orgulho e acima de tudo de liberdade. Porque comecei a sentir nesses argumentos um ponto de vista que se pode resumir muito facilmente: o facto de não se acreditar em deus ou qualquer outra divindade é a mais pura forma de livre arbítrio e existencialismo que podemos ter.
Consequentemente ao longo do desenvolvimento da leitura, no capítulo onde Dawkins nos explica pormenorizadamente o que é o Agnosticismo, as minhas ideias mudaram e essa é a principal sequela que eu posso tirar da leitura do livro.
Depois de ler as afirmações do autor, percebi de um forma melhor o que significa ser agnóstico e, creio, que para a minha estabilidade mental, psicológica e social é a melhor opção.
Dito de outra forma, a bíblia é um livro com mais de dois mil anos e o seu conteúdo teve um poder e impacto sobre o mundo como mais nenhum livro teve. Esse conteúdo está preenchido de argumentos - não científicos - sobre a origem do mundo, algo como um design inteligente feito por um ser sobrenatural que domina todas as coisas e as criou, etc.
Por outro lado, este livro de Dawkins é fundado numa série de argumentos científicos em muito relacionados com a ciência de Darwin, o evolucionismo. Um dos que me chamou mais a atenção foi o que está na página 200 do livro onde ele explica que existe uma falsa ideia sobre  a definição de Seleção Natural de Darwin. Sendo que aquela tese aponta mais em seleção de grupo. Para percebem melhor terão mesmo que ler o livro.
Em suma, a conclusão que cheguei é que nunca ninguém será capaz de provar a existência ou não de deus. Por essa razão e de forma a evitar conversas e discussões sobre criacionismo e evolucionismo que nunca vão levar a lado nenhum, o livro ajudou-me a decidir tomar a decisão de me tornar agnóstico.
Finalizando, existe algo no livro, nas últimas páginas, que nos fazem refletir sobre o mundo que foi criado à volta da utopia da igreja. A forma como existe um legado nas escolas e nas instituições familiares que influenciam as crianças na fase de entender o mundo que os rodeia. Este é um facto que me leva acreditar que se aqueles modelos mudassem, talvez o mundo se tornasse um mundo melhor. Porque, como Dawkins afirma no final do livro: "(...) when humanity is pushing against the limits of understanding. Even better, we may eventually discover that there are no limits"

terça-feira, 6 de março de 2012

X.TO - Documentário sobre as Aldeias de Xisto

Conheci o João Correia na primeira edição do So You Think You Can Pitch. No meio de todas as pessoas presentes, metemos conversa um com o outro e desde de então temos vindo a falar ocasionalmente. 
Devido a essas conversas, acabei por descobrir que ele planeou um projeto sobre as Aldeias de Xisto em Portugal intitulado X.TO, como fruto da investigação para a sua tese de Mestrado em Comunicação Multimédia na Universidade de Aveiro que se encontra no momento a frequentar. 


Desde de logo, o  João demonstrou uma vontade enorme em conseguir levar o trabalho avante e, por essa razão, realizou um pequeno vídeo em que explica os objetivos do projeto, as razões da sua escolha e, mais importante, a explicação da sua escolha de financiamento: o Crowd Funding. 


Dito tudo aquilo, passo a explicar a verdadeira razão deste post. Por um lado, quero ajudar o João a divulgar o seu projeto. Que considero que além de ser muitíssimo interessante,  no final vai-se obter um documentário recente, criativo e que poderá promover mundialmente esta caraterística da cultura portuguesa. Pelo que o João me disse através de uma conversa no facebook, as pessoas têm se mostrado muito participativas  e simpáticas em ajudá-lo. Percebeu a certa altura que é melhor deixar de ter um fio condutor, mas na minha opinião isso é bom. Porque mesmo depois de muito planeamento das fases de pré-produção, produção e pós-produção, apenas no terreno sabemos com o que contar. E muitas vezes isso leva-nos a obter melhores resultados.
Noutra vertente, quero pegar num exemplo concreto de alguém que recorreu ao Crowd Funding, que neste caso foi a plataforma PPL, para conseguir o financiamento necessário para o arranque. Que aliás aconteceu apenas há umas semanas atrás. 
Dito de outra forma, quero que aqueles que lerem este post sejam influenciados na decisão quando se encontrarem em dúvidas sobre se devem avançar com esta estratégia ou não. 



Assim, convidei o João a dar uma entrevista para o Arte de Se Exprimir. Através da mesma podem saber mais pormenores sobre o projeto, conhecer melhor o próprio João e as suas opiniões sobre o cinema, entre outros pontos. 
Resta dizer que podem acompanhar o desenvolvimento do projeto no seu blog de produção. Segue a entrevista:

1. Fala-nos um pouco de ti e sobre as razões que te levaram a escolher o cinema como área profissional?

Apesar de surgir como uma enorme influência no meu trabalho e na minha vida, o cinema não é a minha (única) área profissional. Pensando bem, não tenho qualquer área profissional definida, visto que os trabalhos que tenho desenvolvido até agora se desdobram entre várias áreas.
Estou de momento a terminar o meu mestrado em Comunicação Multimédia (ramo de Audiovisual Digital) na Universidade de Aveiro e também em rodagem para o meu projecto mais ambicioso até agora, o documentário sobre as Aldeias de Xisto.
Para além de uma enorme satisfação em apresentar um trabalho de qualidade, espero que este projecto me leve a concretizar outras ideias que tenho desde miúdo, como realizar uma longa-metragem de ficção científica.
É mais fácil terem uma noção de quem sou e o que tenho feito em www.joaopedrocorreia.com.


2. Sendo tu um jovem realizador, que opinião tens sobre o uso do digital no cinema em detrimento da película? Qual vais usar no teu projeto?

Acho que é o caminho lógico a tomar. Por mais nostálgico que o uso da película seja, o digital é bastante mais cativante. Para mim, filmar em película, para além dos constrangimentos financeiros, logísticos, etc., não acrescenta nada que eu não consiga fazer em digital, inclusive obter o grão tão característico da película. Como li algures, é "utilizar um ábaco para navegar na Internet".


3. Acreditas que em Portugal faz-se bom cinema?

Sem dúvida. Penso que a larga maioria dos espectadores não está ciente do que de melhor se faz no nosso país, principalmente devido à aposta das grandes cadeias como a Lusomundo em filmes de estúdio e não no cinema de autor. Mas quem realmente se interessa em conhecer mais arranja sempre forma de ver o que quer.


4. Explica-nos em pormenor o teu projeto que terá como temática as históricas Aldeias de Xisto em Portugal?

Gosto de descrever este projecto como um trabalho em constante mutação, que parte do conceito de Aldeia de Xisto, e vai explorando o que se passa nas Aldeias que vão estar presentes no documentário. Não há uma linha condutora definida, mas sim uma vontade de mostrar estas aldeias, as paisagens em redor das mesmas, e sobretudo, as pessoas que habitam nelas.
Já vi tradições que foram recentemente recuperadas, desabafos em relação a dívidas por saldar, o incómodo do imigrante que, apesar de bem intencionado, foi parar no centro da má língua, e muito mais. Até terminar a edição do documentário será impossível definir uma temática menos abrangente que "Aldeias de Xisto em Portugal". Mas até que nem me desagrada, tenho novas surpresas à minha espera em cada aldeia que visito.


5. Quais foram as razões que te levaram a escolher esse tema?

Querer partilhar com outras pessoas o que é viver numa aldeia. Eu cresci, vivi e ainda vivo numa aldeia. Como vivo no concelho de Arganil, apontei inicialmente o Piódão como o centro do documentário, mas devido à construção peculiar da mesma e de residir no centro da rede das Aldeias do Xisto, alargar a rodagem a outras aldeias pareceu-me ser a decisão mais lógica.


6. Um dos factos que te pode distinguir enquanto alguém que ainda está a começar na área, foi o recurso ao Crowd Funding para conseguires financiamento para o teu projeto! Acreditas que é uma alternativa às fontes de financiamento tradicionais?

Sem dúvida. Se o projecto de Crowd Funding for bem planeado, tiver potencial e demonstrarmos paixão pelo trabalho que pretendemos realizar, certamente não faltará quem esteja interessado em apoiar o projecto, que foi exactamente o que sucedeu no meu caso. Como em qualquer caso, é tudo uma questão de ambição, esforço e um pouco de sorte. Não digo que se recorra apenas ao Crowd Funding para alavancar o projecto, até porque no meu caso recorri também à ajuda da ADXTUR, que gere a rede das Aldeias do Xisto, que me conseguiu oferecer soluções que o "dinheiro não compra".

7. Explica-nos todo o processo para conseguires atingir toda a totalidade monetária e as dificuldades que sentiste?

Criar uma campanha de promoção online através do meu website e várias redes sociais, apostar na qualidade do vídeo que encabeça o projecto, contactar pessoas com grande influência online para me ajudarem a promover o projecto, passar horas e horas agarrado ao telefone a pedir apoios a tudo o que se mexe e nunca descartar uma possível opção de apoio do projecto. E claro, nunca esquecer os nossos entes queridos, amigos, etc., porque se as pessoas mais próximas de ti não acreditarem no teu projecto, quem irá?

8. Sentiste abertura por parte das pessoas em apoiar este tipo de causa? Mesmo tendo elas sempre no final algum tipo de compensação pelo apoio dado?

Sim. Para ser sincero, fiquei surpreendido pela enorme vontade que as pessoas que contactei tinham em me apoiar. Talvez tenha sido pela forma como abordei o projecto ou pela temática do próprio projecto. Mas tive sempre uma reacção positiva em relação ao projecto.

9. Explica-nos a metodologia das compensações para os apoiantes do projeto?

É um processo bastante simples. No meu caso, tinhas 10, 20, 40 ou 50€ que podias doar. Quanto mais doasses, mais contrapartidas terias. Por exemplo, 10€ de doação davam-te acesso ao download do documentário e a estares presente nos créditos do mesmo.

8. E que material é que vais comprar com o dinheiro que conseguiste?

Na altura consegui adquirir um apoio de ombro para suportar o equipamento, um microfone, uma objectiva fisheye de 8mm e um monitor externo para ligar à máquina. Todo este novo equipamento veio acrescentar um novo leque de possibilidades que não estavam ao meu alcance antes das doações chegarem. Contudo, apostei sempre que possível no DIY (Do It Yourself), construindo parte do equipamento que utilizo durante as filmagens, tal como o suporte para o microfone.

9. O Crowd Funding foi a única forma que tiveste para arranjar dinheiro para o projeto?

Sim e não. O Crowdfunding abriu-me as portas para conseguir recolher apoios fora desta iniciativa, mas que provavelmente não teria conseguido sem o alcance da mesma.


11. Que tipo de apoio tens obtido da parte da Universidade de Aveiro?

A enorme paciência e conselhos do meu orientador, todo o material de iluminação presente no documentário e a disponibilização de uma sala para a projecção do documentário na antestreia do mesmo.

12. Para quando está previsto o lançamento do documentário?

Finais de Junho de 2012, mas tal como as diferentes histórias das aldeias, há sempre surpresas inesperadas.

13. Esperas ter reunido no auditório, no dia da estreia, todas as pessoas que apoiaram o projeto?

Não. Algumas das pessoas vivem bastante longe, estando uma a residir fora do nosso país. Mas acredito que não seja por falta de vontade, mas sim pela impossibilidade de se deslocarem a Aveiro.

14. Que palavras gostarias de deixar a essas pessoas?

Como tenho vindo a dizer desde o primeiro dia do projecto de Crowd Funding, obrigado por todo e qualquer apoio. O projecto ganhou novas proporções com a ajuda de pessoas generosas e que apostaram em mim e no meu trabalho. É sempre bom ver o nosso trabalho reconhecido e valorizado. Espero corresponder às expectativas de todos eles, ficaria bastante feliz.


P.S. Como alguns devem ter notado as palavras escritas ora estão escritas com as regras no Novo Acordo Ortográfico e outras não. Isso deve-se apenas a eu já ter aderido e o João não. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Óscars 2012, o cinema pode ser reiventado

E sempre houve mais este ano, tal como tinha finalizado no post do ano passado sobre a maior cerimónia do cinema mundial. Ao contrário do ano passado, não passei uma noite mal dormida na noite do direto. Pensei depois, ainda, em ver em indeferido, mas nem isso me apeteceu fazer. 
Creio que a razão que me levou a fazer isso foi algumas das razões que apontei no post do ano passado. Isto é, a falsidade e ocultação que muitas vezes pode haver (há?) na escolha dos vencedores que são influenciados pelos opinion makers. E a não inserção de grandes filmes de qualidade nos candidatos, tal como considero que aconteceu com Tyrannosaur (2011).
Contudo, depois pelo que fui vendo e lendo nos media acabei por ficar surpreendido com os resultados. Passo a explicar porquê.


Além da mais que mostrada perna de Angelina Jolie, nos Óscars deste ano houve uma celebração e homenagem ao cinema como tecnologia com história e valor artístico. Como uma arte capaz de se reiventar e surpreender. Segundo escreveu Serge Daney , o françês crítico de cinema:
“…The train in the La Ciotat station still keeps arriving, a century later. It’s still possible to put oneself in the position of the frightened spectator, which means that there is something in cinema that is of the past but not past”
Por outras palavras, os grandes vencedores da noite mais esperada pelas estrelas de Hollywood foram The Artist (2011) e Hugo (2011).  Que têm em comum a capacidade de nos mostrar que o cinema ainda é um meio capaz de nos surpreender. Por outro lado, sugere que é imortal e cíclico.  
Não deixa de ser curioso que o primeiro seja um filme a preto e branco. Com recurso a poucos diálogos, uma aposta forte na soundtrack na criação emotiva de experiência, caracterizado pela coragem de Michel Hazanavicius em realizar um filme com aquele guião. Tal como escrevi na análise que fiz ao mesmo aqui no blog, na minha opinião mereceu os prémios de Melhor Filme, Melhor Realizar e  Melhor Ator.
Por outro lado, o segundo é uma aposta na nova estratégia de Hollywood do 3D, embora eu o tenha visto em 2D. Contém no seu argumento uma homenagem a uma das personagens mais importantes da sétima arte, George Méliés. Além disso, é uma película que tenta mostrar a capacidade de imaginação e magia do cinema na mente dos espetadores. Algo que Méliés conseguiu efetivamente criar através da exploração da sua criatividade, tecnologia e arte e que Scorcese conseguiu de uma forma perfeita representar. 
Tudo aquilo, de uma forma resumida, foi o que escrevi também numa outra análise ao filme e, também por isso, considero, indubitavelmente, que mereceu os prémios de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Fotografia.
Finalizando, creio que tudo aquilo é uma prova de que o cinema ainda é capaz de reinventar, mesmo quando alguns falam da sua decadência de criatividade ao longo dos anos pela razão das repetidas sequelas que tem realizado. 



Podemos também entrar mais profundamente nas diferenças entres os dois filmes. Algo que foi muito bem explicado por Adam Cook num artigo para o notebook do MUBI. Diz ele o seguinte. "Hugo is a 3D/color/American “blockbuster” shot in Paris and London and The Artist is a 2D/black and white/French “festival” film shot in Hollywood." E continua dizendo que eles têm alguns aspetos em comum como: o franco conhecimento de cinema dos dois realizadores; que os dois filmes apresentam-se como uma resiliente (elástico)  força e implícitos argumentos que o cinema como tecnologia altera a forma de fabricar a arte e, assim, o cinema consegue evoluir e sobreviver e depois aponta mais analiticamente características (as que estão escritas na citação acima); técnicas que diferenciam os dois. 
Quanto a mim, e de forma a finalizar o post, apenas estou contente por a cerimónia dos Óscars deste ano e todas as pessoas responsáveis tenham sido capazes de homenagear o cinema tal como ele é, ou seja, uma forma de arte. E que Michel Hazanavicius e Martin Scorcese tenham ganho os prémios e com isso o mérito reconhecido. 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O preto nas artes visuais

No outro dia enquanto navegava na net, encontrei no BrainPickings referência a um livro que foi indicado lá como um dos mais importantes escritos no século XX sobre design gráfico. Toughts On Design (1972) foi escrito por Paul Rand - o americano modernista - (1914-1996), que por sinal parece ter sido uma figura importantíssima na área do design gráfico.

Paul Rand

Ao tentar saber mais sobre ele descobri um artigo que despertou o meu interesse. O que me leva a prestar atenção mais detalhada ao artigo foi a forma como Rand o introduziu: "TABOOS AND PREJUDICES HAVE LONG CREATED LIMITING barriers to experimentation and to meaningful work in the graphic arts. In this paper I should like to attack one particular prejudice—that against the color black.". 
Aquela citação levou-me a pensar na importância das cores no design e como os preconceitos sobre essas muitas vezes pode prejudicar o trabalho de um designer. Levou-me também a querer saber quais são esses estereótipos que Rand quer contrapor.
Também quero ter  um arquivo aqui no blog sobre este tema. De forma a ter mais tarde um texto que me possa ajudar em futuros trabalhos em que tenha que recorrer a esta análise. Nesse sentido, decidi analisá-lo de uma forma mais profunda. Além disso, devo anunciar que o artigo ficou bastante extenso e na sua generalidade é uma tradução do artigo de Rand (o que pode fazer com que tenha alguns erros de semântica ou sintaxe, mas tentei ao máximo que isso não acontecesse). Porém, considero que contém ideias deveras importantes para todos aqueles que se interessam por estes temas como eu.



O artigo originalmente foi publicado no livro Graphic Forms: The Arts as Related to the Book (1949) e foi reimprimido no A Designer’s Art (1985). Começa logo com uma citação do poeta françês Rimbaud: "Vowels: black A, white E, red I, green U, blue O, Someday I shall name the birth from which you rise: A, a black furry corset of loud flies Boiling where the cruel stenches flow…"
Rand começa por nos explicar que o poeta utiliza as palavras para simbolizar-se com a carnalidade, a morte e a decadência. Com o tempo esta associação da cor preta com a morte levou à sua condenação na arte como sendo deprimente e sinistra e, portanto, deve-se evitar. Assim, como consequência, o poder e utilidade do negro deve ser evitada, limitada ou mal compreendida por designer, arquitetos entre outros durante o século XX.
Claro que estamos a falar de 1949 e nos dias de hoje creio que o preto já assumiu uma nova importância na criação visual de identidades e imagens. Talvez aquela ideia até seja um bom motivo para mais tarde escrever um post aqui no blog.
Para contrapor aquela visão da época, Rand começa por explicar a importância do preto na Natureza. Então diz-nos que a cor branca é a companheira da preta e as duas são justapostos drasticamente entre o contraste do dia e a noite. Já que a ininterrupta escuridão ou a luz do dia contínua seria intolerável. 
Por outro lado, o preto serve para desencadear subtilmente o brilho das folhas verdes ou a cor do Outono.  É um exemplo que nos leva a crer na importância desta cor, que juntamente com o branco, nos faz admirar a natureza em todo o seu esplendor. Ela está presente na sombra, na luz, nas cavernas e desfiladeiro. Por outras palavras, é uma cor natural que está presente em toda a natureza.
Tenho que concordar plenamente com os parágrafos acima, pois recentemente dei-me a experimentar o black&white na fotografia e os resultados têm sido muito bons, como podem comprovar na fotografia abaixo. O que me leva a crer que esta é uma técnica poderosa quando bem utilizada na fotografia ou design gráfico.

http://www.artedeseexprimir.net/fotografia/momentos

Apontando outros argumentos, Rand afirma que as cores naturais estão integradas, o que faz com que participem na reflexão das cores que as rodeiam. E o preto, de uma forma modesta, fornece um perfeito fundo para as cores naturais. Consequentemente, o preto tem sido muito bem compreendido na utilidade diária. Já que nos E.U.A e Europa o preto foi de longe a cor utilizada nos carros, nomeadamente os de fruição. Por outro lado, o preto é a cor fúnebre ou até a cor da roupa interior feminina tornando-a sensual e elegante.
Rand continua dizendo que se olharmos de uma forma mais profundamente psicológica para o preto, ele está ligado com mistério: com a morte é incognoscível, com a noite é cheia de coisas escondidas - ou medo ou mágico.
Finalmente, em alguns países o preto ou quase preto tem sido empregado de uma forma extensiva em arquitetura ou em design de interior. Por exemplo, o padrão de coloração das casas japonesas é baseado no contraste entre o uso do escuro e materiais de luz. A madeira escura muitas vezes delineia muitas vezes a básica estrutura da casa e separa-a esteticamente das luzes coloridas das partições (fusuma) e os tapetes (tatami).

Exemplo de decoração de uma casa Japonesa (Fusuma)

Creio que até aqui, isto é, nas linhas acima escritas, podemos encontrar argumentos gerais e abstratos que Rand argumenta contra os preconceitos e tabus do uso do negro no design.
A partir daqui ele entra em exemplos mais concretos recorrendo para isso a ilustrações onde o preto foi utilizado de forma a reforçar a sua beleza, simplicidade e utilidade.
Na primeira das suas ilustrações, que mostra um edifico desenhado por Mies van der Rohe, o preto é um factor crucial para a sua estética. Os membros de ferro desta estrutura estão expostos e pintados de preto. O efeito disto é múltiplo: a estrutura está claramente definida, está colocada num dramático contraste para as paredes não pálidas do rolamento do tijolo, a maior parte dos seus membros é reduzido fazendo-os parecer leves e delicados. Assim, uma grande elegância é conseguida sem recurso a materiais caros ou decoração. Finalmente, a contenção e a serenidade do preto faz com que a construção do edifício pareça um oásis no coração caótico da cidade.

Edifico desenhado por Mies van der Rohe 

Com aquela explicação, sem dúvida, que é compreendido que como a qualquer cor, o valor do preto depende da maneira como é utilizado. O preto será sempre lúgubre, ou brilhante ou até elegante dependendo sempre do seu contexto e da sua forma. Apesar do uso bem sucedido do preto, por exemplo no Japão, em edifícios e interiores modernos, ainda existem muitas pessoas que negam categoricamente o preto, diz Rand.
A seguir o americano modernista fala sobre um médico que escreveu sobre o uso das cores nos interiores sobre a forma de um aviso sinistro contra o negro: “This is the most dismal of all colors—it expresses all that is opposite to white.”   Edward Podolsky, The Doctor Prescribes Colors, pp. 48.
Para refutar aqueles argumentos, Rand afirma que este tipo de denúncia ignora completamente a natureza relativa de qualquer cor ou forma.
Para demonstrar aquele ponto de vista, recorre a Eisenstein que escrevendo sobre os filmes afirma: “Even within the limitations of a color-range of black and white … one of these tones not only evades being given a single ‘value’ as an absolute image, but can even assume absolutely contradictory meanings, dependent only upon the general system of imagery that has been decided upon for the particular film.” Eisenstein, The Film Sense, pp. 151-152.  
Em suma, o que Eisenstein afirma é que o significado e utilidade da cor depende apenas sobre o sistema geral de imagens que foi decidido para o filme.
Por exemplo, ilustra este ponto importante pela reversão do papel do negro em relação ao branco nos dois filmes: Old and New (1929) e Alexander Nevsky (1938). No anterior o negro significa coisas reacionárias, antiquadas e criminais enquanto o branco denota felicidade, vida e progresso, e que em Alexander Nevsky (1938); branco era cor da crueldade, opressão e morte e o preto está identificado com os guerreiros russos e, representa por isso, heroísmo e patriotismo. A resposta de Eisenstein para a surpresa e protesto dos críticos naquela inversão do simbolismo tradicional, foi citar Moby Dick, a famosa baleia branca já que o leitor deve lembrar-se que a brancura lívida, leprosa desta baleia simboliza o mal monstruoso e desconcertante do mundo.
Por outro lado, na Idade Média e Renascimento, o preto (com algumas notáveis exceções) foi tratado como um elemento linear ou foi associado com a modelação claro-escuro. Kahnweiler em The Rise of cubism (1949) diz: “Since it was the mission of color to create the form as chiaroscuro, or light that had become perceivable, there was no possibility of rendering local color or color itself.” Daniel-Henry Kahnweiler, The Rise of Cubism (New York, 1949), p. 11. 
Embora Kahnweiler esteja a referir-se à cor em geral, aquele testamento aplica-se ao preto em geral. No século XX as possibilidades de reprodução da cor como uma coisa em si mesmo e não primariamente como uma descrição tridimensional ou luz objetivada foi descoberta e explorada. Coincidente com esta tendência, o preto tornou-se um valor plástico positivo. Creio, que para entender melhor estes argumentos seria preciso fazer uma análise visual e científica a obras que contenham aquelas caraterísticas.
Finalmente, Rand refere que entre os artistas que usaram o preto como elemento vital no seu trabalho temos: Rouault, Braque, Miro, Leger, Arp, and Picasso. Beardsley, Masereel, e Posada, por exemplo, utilizaram-no exclusivamente.

Obra de Arp
Um desses artistas descreveu a obra acima da seguinte forma. "The black grows deeper and deeper darker and darker before me. It menaces me like a black gullet. I can bear it no longer. It is monstrous. It is unfathomable. As the thought comes to me to exorcise and. transform this black with a white drawing, it has aheady become a surface. Now I have lost all fear, and begin to draw on the black surface. I draw and dance at once, twisting and winding, a winding, twining soft white flowery round. A round of snakes in a wreath…white shoots this way and that…" Jean Arp, On My Way (New York, 1948), p. 52.
Com aquela citação Arp entende que o preto sozinho e fora do contexto é assustador, mas ele sabe também a sua potência uma vez que é formado e relacionado.



Uma outra ilustração que Rand contém no seu artigo é a pintura de Picasso Guernica. Para ele é um eloquente testemunho do poder expressivo do preto e os seus companheiros naturais que são o cinzento e o branco. Continua explicando que embora não saibamos a intenção de Picasso, podemos arriscar algumas afirmações sobre os efeitos mais evidentes alcançados pela substituição do preto, branco e cinza pelas cores habituais.
Isto é, a ausência das esperadas cores pictóricas dramatiza o impacto do trabalho. Além disso, a ausência de cor implica todas as cores, fazendo com que o espetador use a atividade das forças da sua imaginação por não dizer-lhe tudo.
O uso do preto, branco e cinza é um eufemismo que torna possível e suportável o horror e a violência das imagens. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele enfatiza a imaginação de uma forma brutalmente trágica. É provável que fora de questão naquele mural a preto e branco eles joguem os seus simbólicos papéis ancestrais. Eles são as cores primas não adulteradas na luta entre a vida e a morte.  
Outro argumento que Rand novamente recorre é o facto de durante muitos séculos pintores chineses e japoneses terem reverenciado (respeitado) o preto como cor. Na pintura japonesa, o preto (sumi) é muitas vezes a única cor empregada. Os artistas japoneses sentem que: “colors can cheat the eye but sumi never can; it proclaims the master and exposes the tyro.” Henry P. Bowie, On the Laws of Japanese Painting (San Francisco, 1911), p. 39. 
Para reforçar esta relação dos artistas japoneses com o sumi Rand evoca um famoso pintor japonês chamado Kubota que frequente expressava o desejo de poder viver o suficiente para ser capaz de descartar a cor totalmente e usar o "sumi sozinho por todos e quaisquer efeitos nas pinturas." Henry P. Bowie, On the Laws of Japanese Painting (San Francisco, 1911), p. 39.
Segundo ainda Rand, em 1860 escreveu: "I do not know whether the use of black for mourning prevents the use of it, in numberless cases, where it would produce most excellent effects.” M. E. Chevreul, The Laws of the Contrast of Color (London, 1883), p.54. 
Parece que aquela expressão foi pertinente no século XX como foi no século XIX. Já que muitos artistas gráficos ainda coibia do preto. Pois quando eram confrontados com nenhuma outra alternativa que não o preto, como na publicidade, em jornais ou publicidade muitas vezes eles aceitam a contra gosto e fazem pouco esforço para descobrir ou desenvolver as suas potencialidades.
No entanto, as qualidades físicas e psicológicas discutidas até agora em relação à arquitetura e pintura são igualmente importantes para as artes gráficas: publicidade, design de capa e tipografia. De forma a ilustrar isso Rand utiliza vários exemplos do uso do preto nos seus trabalhos.


A primeira das suas ilustrações é um fotograma de cover design. Embora o fotograma seja uma imagem tecnicamente de luz e sombra de um ábaco, é essencialmente um padrão de formas claras e escuras que parecem mover-se verticalmente ao longo da sua superfície. Porque o fotograma é uma abstração das qualidades plásticas do objeto que se torna mais importante do que as suas literais (opostos).  O fotograma atingiu o estatuto de forma legítima de arte como trabalho do trabalho pioneiro realizado por pessoas como Man Ray ou Moholy Nagy, desde de então tornou-se cada vez mais popular no campo gráfico.
Uma das forças primas do poder visual do fotograma foca-se no seu preto, branco e cinzento tonalidades. O fotograma retrata um mundo de luz, sombra e trevas povoado por misteriosas formas sugestivas. A capacidade destas formas para estimular associações variadas e imaginativas na mente do observador é ameaçada quando o fotograma é processado em cores. Ele ainda pode ser um trabalho efetivo de arte, mas o seu poder evocativo peculiar pode ser destruído.  


Um outro exemplo que Rand apresenta no seu artigo é um trabalho tipográfico que é a capa de um catálogo  para a coleção  Arensberg Collection que ele projetou para o Art Institute of Chicago. A capa é constituída por uma séries de contrastes, a mais importante das quais é a de preto e branco. Em conjunto as duas agem em sentido como cores complementares. Chevreul descreveu-os como tal,  porque quando eles são justapostos cada um se torna mais vivido. Isto, diz Chevreul, é devido ao facto de a luz brilhante refletida  pela área branca anular a luz refletida a partir da área preta. Isso faz com que o negro pareça preto e o branco mais brilhante.
A tensão entre o branco e o preto na capa é agravada por se opor a uma grande área de preto para uma pequena área de branco. O tema de contraste é realizada mais pela variação drástica do tamanho das letras.  A rugosidade das bordas do grande A enfatiza a nitidez das letras menores A, e o extremo das letras diagonais são neutralizadas pelos ângulos retos do livro em si. Mas o elemento mais dramático de contraste reside na utilização de preto e branco. Os dois tendem a emprestar dignidade e elegância para a capa do livro, mas o contraste vigoroso entre os dois dá uma qualidade poster-like.
Thomas B. Stanley no livro The Technique of Advertising Production (1947) disse:  “While color has high attention value on short exposure, psychological tests indicate that the longer the time during which advertisements are examined, the more a black and white treatment tends to regain the attention lost at first glance to a color competitor.”. 
E com esta afirmação termina a análise ao trabalho tipográfico.




Muitos anunciantes e artistas publicitários sentem que que um anuncio torna-se mais colorido em proporção à quantidade de cor utilizada no mesmo. Rand considerava isso falso. Explica que cores limitadas quando combinadas com o preto e o branco fornecem um fundo brilhante, mas neutro e é muitas vezes mais eficaz do que o uso de muitas cores. Além disso, a tendência do preto e branco para iluminar e animar outras cores, muitas vezes faz com que toda a cor usada ser mais articulada do que quando utilizada sozinha ou combinado com outras cores primárias ou secundárias. Isto é especialmente importante isto é especialmente importante no caso de cores escuras.
No anúncio para a loja Kaufman, que é a imagem acima, Rand escolheu o preto e branco combinado com uma forte luz rosa (que na imagem se pode ver a cinza) pelas razões que acima escrevi, bem como outros que Rand explica.
O preto foi usado para o ovo da Páscoa grande principalmente por causa das suas qualidades ambivalentes.  A combinação da forma do ovo, que é um símbolo literal de vida e também sugere a vida pela sua forma inchada de  respiração, com o preto, a cor da morte, tem um valor de choque. Assim, um ovo preto é um paradoxo. Por isso, o símbolo do ovo é muito mais marcante em preto do que se fosse apresentado na sua cor natural ou em qualquer outra cor.
O rosa claro, que é uma cor alegre e brincalhona torna-se mais eficaz quando justapostas com preto, novamente por causa do paradoxo associativo que a sua combinação produz e por causa da ação de brilho do preto. Além disso, o lettering fino e branco torna-se mais vivo quando definido sobre um fundo contrastante pesado.
Em suma, é impossível definir o frio sem o contrastando-o com o calor. É impossível compreender a vida se a morte é ignorada. O preto é a cor da morte, mas em virtude deste facto psicológico que é a cor da vida que define, contrastes, e melhora a vida, luz e cor. É através da consciência do artista sobre o negro como um elemento polar e, consequentemente, de sua natureza paradoxal que o preto como uma cor pode ser apreciada e usada efetivamente. Nem se deve esquecer que a neutralidade do preto torna o denominador comum de um mundo colorido.
Para Rand existia a necessidade de o artista se libertar de padrões de pensamentos tradicionais e convencionais, para que possa criar livremente como é óbvio. Segundo ainda o americano modernista, os preconceitos devem ser discriminados e novos caminhos ou velhos esquecidos devem ser explorados já uma das mais importantes funções do artista é alargar o nosso mundo visual. Eu diria mais, esta atitude também deveria por todos os artistas que ambicionam evoluir ou melhorar as suas obras. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ilustrando sobre a perspetiva da caneta

O video sem dúvida que se tornou uma arma muito poderosa na capacidade de o olho humano poder observar pormenores que até então não era possível. Mais fascinante é podermos ver como nasce do nada os traços que depois vão dar a obra final. As várias técnicas seguidas para criar diferentes objetos visuais, a forma como é dado volume a esses e como se usa diferentes tipos de ferramentas para esse fim.





É isso que podemos ver neste trabalho de Though Ronan e Erwan Bourouec que não são são artistas sequenciais, mas criaram no seu estúdio, com a ajuda de  uma câmara fixa, uma forma de filmar ilustrações  sobre as perspectivas das canetas. É um divertimento, quase vertiginoso vermos a caneta, o pincel, o marcador deslocarem-se ao redor das páginas ou telas para criar figuras básicas e complexas.
Mais ainda, acaba também por ser um making of do trabalho que, por um lado ajuda a perceber melhor a sua construção. Mas, por outro, mostra o quanto simples pode ser desenhar. Era uma ideia que todos os artistas deveriam seguir. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A nação digital

Digital Nation (2010) é um documentário open source feito pelo canal público americano PBS. É um trabalho que explora o que significa viver num mundo novo, isto é o mundo digital. Realizado por Rachel Dretzin conta com o apoio do jornalista de tecnologia Douglas Rushkoff. Aliás, foi através deste último que tive conhecimento do documentário, já que estou a ler o seu último livro PROGRAM OR BE PROGRAMMED Ten Commands for a Digital Age (2010). 


O trabalho incide muito sobre o território norte-americano, mas é sem dúvida um documento esclarecedor sobre os efeitos do digital nas sociedades, na educação e nas pessoas. Mais não seja por causa da influência que a hegemonia norte americana tem sobre o mundo, especialmente sobre a Europa e Portugal. Porém, extravasa a geografia dos E.U.A e vai até à Coreia do Sul para perceber os impactos dos vídeo jogos na sociedade coreana e nomeadamente nos seus jovens. 
Está divido em 9 capítulos e todos eles exploram várias vertentes onde o digital conseguiu ter impacto profundo nos modelos instaurados até então. Assim, segue-se um pequeno resumo de cada capítulo de forma a sistematizar todo o seu conteúdo. 

Douglas Rushkoff

No primeiro capítulo é analisado a forma como o multitasking nos distrai de tudo. Nesse sentido, é-nos dado os exemplos dos estudantes do M.I.T que se encontram como uns dos mais inteligentes estudantes do mundo e  dos mais ligados à rede através das ferramentas tecnológicas. 
No segundo, é levantada a questão do que todo este novo mundo digital nos está a fazer ao cérebro? Através de exemplos dos testes efetuados na Universiadade de Stanford a multitaskers. O que é mais pertubador são os resultados obtidos explicados por Clifford Nass: "We were absolutely shocked. We all lost our bets. It turns out multitaskers are terrible at every aspect of multitasking. They're terrible at ignoring irrelevant information; they're terrible at keeping information in their head nicely and neatly organized; and they're terrible at switching from one task to another."



O terceiro, fala da tal sociedade sul coreana que tem uma dependência patológica pela Internet e que até já se tornou uma crise de saúde pública. Isso é bem mostrado com exemplos de uma mãe coreana preocupada com a dependência do filho pela Internet. Ou até pelo campo de desintoxicação da Internet para onde são mandados os miúdos com problemas. Mas aponta também os problemas de saúde que surgem pelos compulsivos jogadores de video jogos, como por exemplo no World Of Warcraft.
Ainda sobre aquele tema temos os pontos de vista de James Paul Gee que diz que quando se trata de jogadores compulsivos é necessário fazer as perguntas difíceis sobre a vida real; e Henry Jenkins que afirma que tratando-se de gaming, não quer dizer necessariamente que seja uma perda de tempo. 


O quarto aborda o ensino aprendido através da tecnologia, já que os professores estão a abraçar os meios digitais nas salas de aula, já que com isso conseguem manter os alunos envolvidos na matéria e, ao mesmo tempo, dar-lhes novas habilidades para uma nova era. 
O quinto, levanta a questão sobre se esta geração é a mais burra de sempre, no entanto é um debate que ainda agora começou sobre a literacia dos novos media. 
O sexto fala-nos sobre as relações que se estabelecem na rede, focando um mega encontro de utilizadores do World Of Craft onde as pessoas conseguem interagir de forma a refutar que o digital leva ao isolamento social.  
O sétimo foca-se em mundos virtuais ou jogos online. Aqui é surpreendente o que nos é mostrado. Por um lado,  temos Philip Rosedale, criador do mundo virtual Second Life a afirmar que depois de estarmos lá dentro tudo é possível. Por outro, temos o exemplo da IBM que tem cerca de 10.000 empregados que se encontram regularmente para tratarem de assuntos profissionais em mundos virtuais. 


O oitavo olha para a utilidade da tecnologia digital nas forças aramadas norte-americanas e como certas experiências virtiais podem mudar o comportamento dos soldados e também para o seu uso na pilotagem de Drones (veículos aéreos não pilotados). 
Finalmente o nono capítulo interroga como os vídeo jogos estão a ser utilizados nas escolas como novas ferramentas de ensino. Interroga se as escolas estão organizadas à volta das mecânicas de jogo e alerta que os alunos estão a receber cognições que ainda não somos capazes de reconhecer e medir. Novamente existem abordagens interessantes neste capítulo de James Paul Gee, ao afirmar que até um jogo como o Grand Theft Auto pode ser educacional. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pensamento infográfico

A infografia é uma forma de comunicar visualmente. É mais ainda uma forma de representação visual de informação que precisa de ser explicada de forma mais dinâmica. É utilizada pelo jornalismo, mas também em mapas, manuais técnicos, etc. A combinação dos elementos num infográfico, que podem ser fotográficos, textuais ou desenho, adquirem muitas vezes formas muito complexas. 

Todos os direitos reservados a Francesco Franchi

De acordo com a Wikipédia (num artigo que me parece ser bastante fiável); as suas origens remontam à pré-história e foi utilizado por Leonardo Da Vinci, no estudo de embriões; e Charles Minard que criou um importante infográfico sobre a marcha de Napoleão sobre Moscou. 
Na guerra do Golfo a infografia teve a sua importância aumentada, que pela falta de fotografias, demandava uma expressão gráfica mais contundente. Com o aparecimento dos Macintosh, Windows 95 e o programa vetorial da Adobe, o Illustrator, a infografia catapultou as possibilidades do jornalismo. Onde nos dias de hoje, consegue cativar de uma forma não linear a atenção do leitor. 

Todos os direitos reservados a Francesco Franchi

Tudo aquilo, serviu para apresentar o Art Director da IL (Intelligence in Lifestyle) Francesco Franchi que é um pensador infográfico. O que me chamou a atenção nele, além do fabuloso trabalho em infografia, foi a maneira como ele afirma que o pensamento infográfico vai para além de imagens bonitas, já que cria uma experiência de leitura diferente e incentiva o pensamento crítico. 
Mais, ele afirma em declarações à Gestalten TV (conforme podem ver no vídeo que coloco mais abaixo); que não se trata apenas de construir alguns números e gráficos vetoriais parecerem inteligentes juntos, é uma linguagem narrativa - é representação mais interpretação para desenvolver uma ideia. 
Outra ideia de reforço, é a importância do conteúdo no design, já que é necessário ser informativo, mas também entreter o leitor. Para isso, Francesco aponta a importância de uma narrativa não-linear  na leitura de uma infografia, exemplificando que a infografia não são powerpoints e por isso não têm que ser necessariamente lineares. É a estrutura do storytelling infográfico que diferencia a qualidade do mesmo: já que diferentes caminhos para descobrir histórias ou factos diferentes, expostos daquela forma, pode ser uma experiência mais imersivo. 
Em suma, considero que este ponto de vista é imensamente interessante para perceber a importância da infografia. Pois, percebemos que a soma de todas as partes é que a tornam um todo artefacto de arte/informação. Isto é, um objeto capaz de captar a atenção do leitor pelo lado visual, mas também ser capaz de impregnar uma experiência mais profunda e crítica através de uma narratologia composta na mesma. 


sábado, 4 de fevereiro de 2012

O poder transformador da arte

Wasteland (2010) é um documentário realizado por Lucy Walker. Um trabalho extraordinário sobre um homem, Vick Muniz, com uma arte muito particular e original. Mas mais importante ainda é um documento sobre uma realidade brasileira e focado no espírito humano dos catadores (pessoas que trabalham com material reciclável, no maior aterro do mundo situado no Rio de Janeiro). Aquilo que nos distingue dos animais é a nossa humanidade e isso está bem patente neste documentário.


O ambiente onde se passa a maior parte da ação é o Jardim Gramacho. Segundo a informação passada no documentário, a maior lixeira do mundo e que recebe todos os resíduos da área do Rio de Janeiro no Brasil. Ao visualizarmos as captações feitas no local, deparamos com condições miseráveis da condição humana na ingrata luta pela sobrevivência. Pessoas que nunca tiveram muita sorte na vida, vasculham o lixo em busca de material reciclável para o poderem separar e ganhar dinheiro. 
Ao longo do desenvolvimento da narrativa, vamos conhecendo as suas dificuldades diárias, as suas histórias e mais admirável ainda o seu orgulho enquanto praticantes de uma profissão não reconhecida e descriminada.


Por outro lado, vamos conhecendo o lado humanitário, altruísta e solidário de Vick Muniz. O artista de origem brasileira, que na sua infância habitou a zona. Porém, sorte do destino ou por outra razão qualquer, nos anos oitenta rumou aos E.U.A e a sua vida mudou por completo. 
Tornando-se num dos maiores artistas da contemporaneidade (o próprio no filme afirma que é o brasileiro que no exterior ganha mais dinheiro no mundo); Muniz resolve regressar às suas origens de forma a começar o seu novo projeto e, ao mesmo tempo, fornecer algum tipo de ajuda àquelas pessoas. 


Na sua estrutura cinematográfica não existe grandes pormenores de destaque, também não podemos esquecer que é um documentário. Contudo, ao nível da criação da experiência emocional o filme ganha exponencialmente grandiosidade.
Por um lado, conhecemos a metodologia de um artista com acesso a recursos e uma imensa criatividade num processo artístico admirável. Por outro, a personalidade singular de pessoas que nada têm e, de repente, tornam-se parte de uma arte que viaja pelo mundo estando patente nas melhores galerias do mundo. 



Finalmente, aquilo que mais admirei na película é a concentração no lado altruísta do artista, mas também na sua personalidade enquanto ser único e inimitável pela sua arte e muito modesto. Por outro, o levantamento das aparências dos catadores enquanto seres humanos.
Ao longo do documentário, vamos percebendo que depois de retirarem toda aquela sujidade neles encrostada, são pessoas como qualquer um. Com sentimentos, inteligência e humanidade. E assim a arte consegue ter um poder transformador. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O sol e a lua, a love story

Este primeiro trabalho da produtora Racecar de seu nome Kiss (2012) é um trabalho independente sobre uma hipotética relação existente entre o sol e a lua. Tem um visual extremamente apelativo e consistente, embora na sua maioria seja monocromático.



É um trabalho de dois noruegueses, sediados em Oslo. Joseph Hodgson traz como background o design gráfico e o motion graphics e Franck Aubry experiência como VJ, músico e ilustrador. Pelo que me foi possível apurar esta é a sua primeira aventura juntos e o resultado não podia ter sido mais perfeito.
Num formato super widescreen o artefacto faz-nos viajar. O seu sound design é soberbo e a música de fundo intitulada Stille dos Bendik combina que nem uma luva na criação da experiência.  



Creio que ao nível do 3D ainda se pode notar uma imaturidade, no entanto nada que não seja perfeitamente normal. Melhor ainda será ler a frase de Paul Auster antes de ver a obra de forma a influenciar o seu visionamento: "The sun is the past, the earth is the present and the moon is the future." Porque também influenciou os criadores. 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sony World Photography, abstração de fragmentos vivenciais

O Sony World Photography é um dos concursos de fotografia mais prestigiados do mundo. Além de procurar enaltecer fotógrafos profissionais, foca-se também nos amadores. Nesse sentido, deixo aqui uma seleção das fotografias com mais impacto a concurso em 2012. 
Aquilo que podemos ver nesta seleção é a abstração de fragmentos vivenciais que se passam pelo mundo inteiro. As fotografias apresentadas exprimem um pouco daquilo que a todos os minutos, horas, semanas, meses e anos acontece pelo planeta terra. E estas fotos são o documentário desses momentos, embora sempre uma pequena amostra.  

Mattia Vacca
Laura Pannac
Helen Grace Ventura Thompson

Donald Weber/VII
Alexandr Afonin
Alejandro Cartagena
Giovanni Frescura
Natalia Belentsova
Pansiri Pikunkae
Paul Irving
Ricky Alexander
Rona Chang
Samuel Chan
Victoria Bolshemennik
Chan Kwok Hung

Reaprender

 Nunca é fácil quando conhecemos uma pessoa. Principalmente se por essa pessoa começarmos a sentir sentimentos.  É uma roda viva de emoções ...