sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Homem no Castelo Alto

Philip K. Dick (1928-1982) foi um escritor que dizem que mudou a forma de ver a ficção científica na literatura. Embora o seu reconhecimento tenha vindo pos mortem, as adaptações ao cinema de alguns dos seus livros, elevou-o a outros patamares.
Não seja demais dizer pelo filme Blade Runner (1982) realizado por Ridley Scott e que ganhou uma legião de fãs por causa da sua estética e linguagem cinematográfica. Adaptado do livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968).  Filme que vai ter uma sequela no próximo ano e conta novamente com Harrison Ford.

Philip K. Dick

Porém, depois desta apresentação do autor, quero passar a falar da  web série The Man In The High Castle (2015) produzida pela Amazon em cooperação com a Scott Free e que a segunda temporada estreou no início deste mês. 
Adaptada do livro de Dick com o mesmo nome, a série de ficção científica distópica desenrola-se numa realidade onde a Alemanha Nazi e o Japão, o eixo, ganharam a Segunda Guerra Mundial e são os dois impérios que dominam o Mundo. Particularmente dividem o território norte americano: sendo a costa do pacífico dominada pelos japoneses e a costa atlântica dominada pelos nazis. Estes detêm a capacidade de produzir a bomba atómica. Pois com ela ganharam a grande guerra, lançando uma sobre a capital dos Estados Unidos da América, Washington D. C.  


Lançado em 1963 o livro ganhou o prémio Hugo e foi recebido pela crítica como bastante inovador para a época. Não podendo opinar sobre o livro, porque ainda não o li e nem sei se vou ler. Posso apenas falar sobre a série.
Não tenho conhecimento profundo sobre as séries que a Amazon tem produzido. Na verdade creio que é a primeira que vejo produzida pela multinacional retalhista. 
Porém sei que esta é das mais faladas pela imprensa e meios de comunicação, fazendo com que seja das séries com mais audiência produzida pela Amazon. 
Na minha opinião esta série vem fechar o ano com chave de ouro, num mesmo onde a ficção científica teve uma excepcionalidade com séries como The Stranger Things da Netflix ou Westworld  da HBO. 
O romance na novela envolta em esoterismo realista do que podia ser a realidade. Encontra no meio do cinema a passagem do conhecimento necessário para salvar o mundo de uma aniquilação nuclear. 


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Árabe do Futuro

A coisa mais surpreendente sobre The Arab of the Future: A Childhood in the Middle East, 1978–1984, é a devida devastadora memória gráfica de Riad Sattouf e dos seus primeiros sete anos de vida, e que ele conseguiu escrevê-lo e publicá-lo sem ser morto. 
Nascido em Paris em 1978, filho de um pai sunita sírio e mãe Britânica, Sattouf cresceu na Líbia, na França e na Síria. A sua infância é o tema do seu livro. 




Sabemos que, quando adulto, voltou para a França, desenhou um livro de quadrinhos sobre a circuncisão quando tinha oito anos, fez um filme satírico chamado Jacky no Reino das Mulheres (ambientado num país islâmico fictício com papéis sexuais invertidos) e, até pouco antes do massacre em Paris, trabalhou para o Charlie Hebdo, onde foi o único cartunista de origem árabe. 

Em suma, sabemos que Sattouf escolheu a França sobre a Síria. Lá, ele escreveu e desenhou o Árabe do Futuro, uma dura crítica das suas experiências nas sociedades que deixou para trás, colocando tudo isso em uma picaresca memória gráfica contada a partir do ponto de vista de uma criança. 

O primeiro volume deste livro, publicado inicialmente em francês como L'Arabe du Futur, ganhou o prémio principal no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême em 2015 e o Los Angeles Times Book Prize para melhor graphic novel






Ele concentra-se principalmente na relação entre Riad pequeno e o seu pai, Abdel-Razak, um professor com ambições de trazer iluminação, educação e unidade para os seus companheiros árabes. O segundo volume  centra-se na escola religiosa de Riad na Síria. 
Em um nível, estes dois volumes são a lembrança detalhada, desenhada com grande economia e humor, de uma criança observadora.  Como ele é arrancado da Líbia  para a França e, finalmente, para a Síria.


Ao longo do caminho, obtemos um relato na primeira pessoa da brutalidade da Síria sob Hafez al-Assad e a Líbia sob Muammar Kadafi. Mas como o título sugere, o árabe do futuro pode ser lido muito mais amplamente. 
Sugere uma história de duas culturas, duas civilizações, dois modos de vida - Europa versus Médio Oriente , Ocidente versus Oriente. E serve, de facto, como um relato atento e justificativo da escolha final de Sattouf de viver na França. Um tema atual no mundo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A Idade Adulta é um Mito

Sarah's Scribbles  é uma webcomic que inicialmente se chamou Doodle Time e que depois de ser sindicalizado pela GoComics passou a ter o nome atual.  Adulthood Is a Myth (2016) é um livro retrato autobiográfico de Sarah Andersen que resultou numa coleção ilustrada com os Doodles da cartunista.



Andersen, explora as fraquezas da idade adulta focando o ridículo e por vezes frustrantes acontecimentos que se passam nessa fase da vida.  
Andersen é uma excelente caricaturista - algumas das suas mais engraçadas linhas são painéis de rostos sem expressão, de olhos arregalados. 
Muitos dos seus desenhos mostram o que se pode chamar de problema de introvertidos, sendo por isso que a maior parte dos leitores são pessoas que sofrem de introvertismo. 
Por essa razão, nota-se na autora uma capacidade de capturar pequenas partes da vida que são muito muitas vezes esquecidas e raramente se falam sobre elas. 
Como muitos comediantes talentosos, grande parte do seu melhor material vem dos aspectos desconfortáveis ​​e até embaraçosos da vida. 
Tiras que envolvem a ansiedade social em todas as formas, incluindo a depilação do corpo e o desempenho nos media social.  






Este livro é para todos nós. Estes quadrinhos documentam o desperdício de belos fins de semana na Internet; a agonia insuportável de segurar as mãos na rua com um homem lindo; sonhar o dia todo em voltar para casa e vestir o pijama, e perguntar quando exatamente essa coisa da idade adulta começa. Em outras palavras, os horrores e constrangimentos da vida moderna jovem.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

As Seis Inovações que Mudaram o Mundo.

Vamos lá tentar esclarecer uma coisa, eu não conhecia Steven Johnson. Este é o primeiro livro que estou a ler escrito por ele. Mas a verdade é que encontro na escrita dele uma forma de entender o mundo de forma diferente.
Uma nova forma de entender a História, a ciência, a tecnologia e o evolucionismo que isso leva à prosperidade da raça humana. É um dos temas deveras esquecido, mas importante. 



Uma das coisas que mais gosto quando leio um livro, vejo um filme, é que no fim de cada um há uma mensagem que me sensibilizou e modifica a minha forma de entender a realidade em que vivo.
Quero dizer, o sentido de História para mim é entendido segundo as normas que me ensinaram na escola. 
Seja ela a primária, básica, secundária e académica ou universitária! A história é baseada em factos e é através desses factos que nos é ensinado o sentido de História.
Não passa de uma decisão! Seja ela tomada por instituições que nos regulam ou de uma forma mais pessoal, seja a decisão que tomamos em acreditar. 
Não interessa, somos moldados segundo a decisão do que é importante entender em sociedade como História.
Em How We Got to Now: Six Innovations That Made the Modern World (2014), de Steven Johnson, encontramos uma outra forma de olhar para o passado e entender como as ideias surgem e como elas são transformadas em inovação tecnológica que mudou a Humanidade. 
Mais fascinante é como está explicado no livro como algumas das ideias/invenções que tornaram o mundo mais moderno, aconteceram por acaso ou acidente. 
É uma marca da escrita do autor, que examina conexões inesperadas entre campos aparentemente não relacionados: como a invenção do ar-condicionado permitiu a maior migração de seres humanos na história da espécie para cidades como Dubai ou Phoenix, que de outra forma seriam praticamente inabitáveis.
Acompanhado por uma importante série de televisão em seis partes da PBS,  este livro é a história de redes colaborativas construindo o mundo moderno, escrito num estilo provocativo, informativo e envolvente. 

Peitoral em ouro com pedras semipreciosas e pasta de vidro, com escaravelho alado, símbolo de ressurreição, no centro, do túmulo do Faraó Tutankhamun

O livro é longo, denso e por vezes monótono, mas é engrandecido por ser uma autêntica enciclopédia de conhecimento alternativo ao standard das sociedades modernas. 
O autor apresenta o paradigma do hummingbird effect: uma inovação, ou aglomerado de inovações, numa determinada área acaba por provocar mudanças que parecem pertencer a um domínio completamente diferente. Esses efeitos vêm em variadas formas. Alguns são bastante intuitivos: aumentos de ordens de grandeza na partilha de energia ou informação tendem a pôr em movimento uma onda caótica de mudança que surge facilmente sobre as fronteiras intelectuais e sociais. Basta olhar para a história da Internet nos últimos trinta anos. 
Em seis capítulos ficamos a saber as seis inovações que fizeram o mundo moderno.  Como um jornalista do Wall Street Journal escreveu:

In “Cold,” we move from air conditioning, to the flocking of American retirees to the now habitable Sunbelt, to the shift of political power from north to south. Freezing leads him to the creation of sperm banks, which have given many more women the opportunity to conceive and changed our notions of marriage and parenthood. “Sound” begins in the reverberating cave dwellings of Paleolithic man in Burgundy and ends up with the ultrasound technology being used to determine the sex of unborn children. “Clean” takes us from Chicago’s sewer system, the first urban system in America, to the growth of household cleaning products like Clorox and the hyper sanitized plants where microchips are made.


Las Meninas por Diego Rodríguez de Silva Velázquez



Em suma, este livro é mais que um livro. É um autêntico documento que permite ter uma outra perspectiva sobre a inovação. A visão neo criacionista/tecnológica de Steve Johnson analisa seis grandes inovações que mudaram o mundo. Mas também permite perceber que essas inovações surgiram por um lado depois anos, séculos de tentativa e erro  - o método científico -; e por outro por acaso, por acidente da causalidade casual. 
Na conclusão do livro, ele fala dos Time Travellers, ou as pessoas que pensaram em algo extraordinariamente progressivo, capaz de inovar, transformar ou até mesmo mudar o mundo. O curioso é que normalmente essas pessoas estão à frente do seu tempo.
Indivíduos capazes de pensar em algo out the box para a época em que vivem. A analogia moderna surge, obviamente a Steve Jobs e numa frase descreve o espaço onde contemporaneamente surgem as melhores ideias: 
The garage is the space for the hacker, the tinkerer, the maker. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ida, Tag...

Ida (2013) de Pawel Pawlikowski é daqueles filmes em que descrever a experiência de o ver é complicado. Expor por palavras o que o filme contém não chega, é preciso mesmo ver para sentir a plenitude do mesmo. Pois são tantos os pormenores que ele contém que podemos admirar, saborear, contemplar e mesmo assim vamos ter dificuldades em o explicar. 
É mais uma obra cinematográfica tocada por uma linguagem cinematográfica plena, com destaque para o uso da luz num formato preto e branco.
Aliás esse é um dos pormenores que mais se destaca no filme: o uso da luz em apenas duas cores, com captação do som ambiente, nunca utilizando o recurso à banda sonora para preencher o espaço.
Um filme altamente premiado, incluindo um Óscar e BAFTA na categoria para Melhor Filme Estrangeiro em 2015.






De alguma forma,  lembrei-me imediatamente do filme de Michael Haneke, The White Robbin (2009). Mas os filmes só são parecidos pelo uso da técnica utilizada por cada um dos realizadores, o preto e branco. Bem como a narrativa se desenvolver num tempo semelhante. Encontram-se também contornos culturais que moldam as sociedades e logo as pessoas. 
Nos dois filmes são mostrados os monstros que as pessoas escondem nas gavetas da sua memória. E demonstram pesadelos acontecidos e o impacto desses nas suas vidas.
São ambos filmes com preocupações filosóficas, que através da sétima arte tentam expor a perspetiva de cada realizador influenciados pelo meio onde nasceram. 
Ambos os dois filmes são merecedores da marca de cânone.





Especialmente na obra do realizador polaco, a metamorfose da personagem principal é como Barabbas, que depois de uma experiência traumática, entra numa fase de negação.
Aqui, Ida tem necessidade de conhecer o mundo e a vida como elas realmente são depois de descobrir que toda a sua vida foi moldada pela ganância de pessoas.
Há um impacto entre o estilo de vida moderno e a vida vivida segundo os princípios religiosos.
Nota-se a influência de gostos pessoais e formas de pensar sobre o mundo em geral de forma diferente.
A forma como vemos o mundo muitas vezes está escondido na nossa imaginação e na forma como ela retrata certas histórias que fomos ouvindo.
Então se forem histórias do passado, a nossa imaginação tem mesmo que ser levada à sua capacidade máxima de representação de sentido na nossa razão.
Por isso mesmo, esta obra serve perfeitamente para nos contextualizar naquele tempo negro da história europeia e num país que mais sofreu com esse monstro do passado.

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