terça-feira, 20 de março de 2012

Program or Be Programmed, dez mandamentos para a Era Digital

Program or Be Programmed (2010) é um livro escrito por Douglas Rushkoff e é um livro que analisa e aponta mandamentos, mais concretamente dez, sobre o que significa viver num mundo digital como aquele que temos atualmente. E consequentemente, tenta chamar à nossa consciência conselhos de como podemos nos ajustar melhor a ele.

O autor é escritor, professor e documentalista que foca as maneiras como as pessoas, culturas e instituições criam, partilham e influenciam todos os seus valores, sempre sobre o tema da tecnologia. O livro é um seguimento do documentátio Digital Nation (2011) que também aqui sobre ele tinha escrito


Na introdução do livro o autor explica-nos que as pessoas começaram por ver na Internet uma nova oportunidade para a participação amadora em coordenados setores dos media e a sociedade.
Esta, a sociedade que olhou para a Internet como um caminho para conexões articuladas e novos métodos de criar conhecimento. Porém, para o autor, a sociedade está a encontrar-se desconetada, a negar pensamento profundo e drenado de valores profundos.
Para o autor isto poderia não acontecer se simplesmente nós tivéssemos entendido a direção oblíqua das tecnologias que estamos utilizando e tornasse-nos participantes conscientemente ativos nas maneiras em que elas são implantadas. É uma questão de pausar-nos o botão e nos perguntar o que a tecnologia significa  para o futuro da nossa vida, do nosso trabalho e mesmo da nossa espécie? 
Porque se pensarmos na tecnologia como um organismo cibernético , para já é mais um organismo mafioso do que um novo cérebro humano coletivo, pelo menos é o que autor argumenta.


Por outras palavras, o que o autor nos quer dizer é que na nossa longa evolução, cada nova revolução que os media conseguiram criar, apresentaram novas perspetivas através das quais nos relacionamos com o mundo.
Por exemplo, a linguagem levou ao conhecimento partilhado, a uma experiência cumulativa e a possibilidade do progresso. O alfabeto levou-nos à responsabilidade, ao pensamento abstrato, monoteísmo e leis contratuais. A Imprensa escrita e as leituras privadas levou-nos a uma nova experiência de individualidade, a uma pessoal relação com deus, à Reforma Protestante, direitos humanos e ao Iluminismo.
Isto é, com o advento de um novo meio o status quo não só se torna mais escrutinado, como é revisado e reescrito por aqueles que ganharam um novo acesso às ferramentas das suas criações.



A invenção da Imprensa na Renascença levou não a uma sociedade de escritores mas uma de leitores. A rádio e a televisão foram realmente apenas extensões da Imprensa escrita: cara e um dos muitos meios que promoveram a distribuição em massa de estórias e ideias de uma elite minoritária para o centro. Computadores e redes, finalmente, ofereceram-nos a habilidade para escrever. Pois nós escrevemos com eles nos nossos websites, blogs e redes sociais. Mas a capacidade subjacente da era do computador é realmente programar, o que a maior parte de nós não sabe fazer. 
Como resultado, a maioria da sociedade mantém-se num salto dimensional de falta de consciência e capacidades por detrás dos poucos que gerem e monopolizam o acesso real ao poder de qualquer era de comunicação. 
Nesse sentido, o autor diz que em vez de estarmos a otimizar as nossas máquinas para a humanidade ou mesmo para benefício de qualquer grupo particular, nós estamos a otimizar os humanos para a maquinaria. Porque nós não estamos apenas a estender uma agência humana através de uma nova linguística ou sistema de comunicação. Nós estamos a replicar a mesma função da cognição através de externos, extra humanos mecanismos. 
Em suma, o autor refere que a Revolução Industrial desafiou-nos a repensar os limites do corpo humano. Perguntas do tipo: onde o meu corpo termina e a ferramenta começa? Pelo contrário, a Era Digital desafia-nos a repensar os limites da mente humana.
Por aquela razão, podemos perguntar quais são as fronteiras da nossa cognição? Assim, o autor sugere no livro dez mandamentos que nos podem ajudar a construir um caminho melhor sobre o reino digital. Cada comando é baseado nas tendências da direção oblíqua dos meios digitais e sugere como conseguir um balanço entre esse viés com as necessidades reais das pessoas que vivem e trabalham ao mesmo tempo no mundo físico e virtual.  
Dito tudo aquilo, segue abaixo excertos do livro em que o autor sucinta as suas ideias no início de cada um dos dez mandamentos e que, na minha opinião, sucinta muito bem as ideias que o autor tenta expor e é, efetivamente, o que interessa assimilar do livro.


Caricatura de Douglas Rushkoff




Time: Do Not Be Always On
The human nervous system exists in the present tense. We live in a continuous “now,” and time is always passing for us. Digital technologies do not exist in time, at all. By marrying our time-based bodies and minds to technologies that are biased against time altogether, we end up divorcing ourselves from the rhythms, cycles, and continuity on which we depend for coherence.
Place: Live in Person
Digital networks are descentralized technologies. They work from far away exchanging intimacy for distance. This makes them terrifically suitable for long-distance communication and activities, but rather awfull for engaging with what - or who - is right front us. By using a dislocating technology for local connection, we lose our sense of place, as well as our home field advantage.
Choice: You Always Choose None of the Above
In the digital realm, everything is made into a choice. The medium is biased toward the discrete. This often leaves out things we have not chosen to notice or record, and forces choices when none need to be made.
Complexity: You Are Never Completely Right
Although they allowed us to work with certain kinds of complexity in the first place, our digital tools often oversimplify nuanced problems. Biased against contradiction and compromise, our digital media tend to polarize us into opposing camps, incapable of recognizing shared values or dealing with paradox. On the net, we cast out for answers through simple search terms rather than diving into an inquiry and following extended lines of logic. We lose sight of the fact that our digital tools are modeling reality, not substituting for it, and mistake its oversimplified contours for the way things should be. By acknowledging the bias of the digital toward a reduction of complexity, we regain the ability to treat its simulations as models occurring in a vacuum rather than accurate depictions of our world.
Scale: One Size Does Not Fit All
On the net, everything scales—or at least it’s supposed to. Digital technologies are biased toward abstraction, bringing everything up and out to the same universal level. People, ideas, and businesses that don’t function on that level are disadvantaged, while those committ ed to increasing levels of abstraction tend to dominate. By remembering that one size does not fi t all, we can preserve local and particular activities in the face of demands to scale up.
Identity:  Be Yourself
Our digital experiences are out-of-body. This biases us toward depersonalized behavior in an environment where one’s identity can be a liability. But the more anonymously we engage with others, the less we experience the human repercussions of what we say and do. By resisting the temptation to engage from the apparent safety of anonymity, we remain accountable and present—and much more likely to bring our humanity with us into the digital realm.
 Social: Do Not Sell Your Friends 
In spite of its many dehumanizing tendencies, digital media is still biased toward the social. In the ongoing coevolution between people and technologies, tools that connect us thrive—and tools that don’t connect us soon learn to. We must remember that the bias of digital media is toward contact with other people, not with their content or, worse, their cash. If we don’t, we risk robbing ourselves of the main gift digital technology has to off er us in return for our having created it.
Fact: Tell the Truth 
The network is like a truth serum: Put something false online and it will eventually be revealed as a lie. Digital technology is biased against fiction and toward facts, against story and toward reality. This means the only option for those communicating in these spaces is to tell the truth.
Openness: Share, Don’t Steal
Digital networks were built for the purpose of sharing computing resources by people who were themselves sharing resources, technologies, and credit in order to create it. This is why digital technology is biased in favor of openness and sharing. Because we are not used to operating in a realm with these biases, however, we often exploit the openness of others or end up exploited ourselves. By learning the difference between sharing and stealing, we can promote openness without succumbing to selfi shness.
Purpose: Program or Be Programmed 
Digital technology is programmed. This makes it biased toward those with the capacity to write the code. In a digital age, we must learn how to make the soft ware, or risk becoming the soft ware. It is not too diffi cult or too late to learn the code behind the things we use—or at least to understand that there is code behind their interfaces. Otherwise, we are at the mercy of those who do the programming, the people paying them, or even the technology itself.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O génio da modernidade

Embora já tenha a versão digital do livro de Walter Isaacson sobre a biografia de Steve Jobs (2011), acabei por encontrar na PBS um documentário denominado One Last Thing (2011) que de uma forma mais agradável e resumida nos retrata o homem que mudou o mundo através da tecnologia nos finais do século XX e início do século XXI.


O que encontramos no documentário em muito será o que poderá ser o conteúdo do livro. No entanto, pelo que me foi permitido saber porque quem já leu o livro, haverá muito mais a dizer. Contudo o que me interessa aqui analisar é este documentário e não o livro, porque também ainda não o li.
O documentário está todo concentrado em Steve Jobs e todas as criações que a sua mente brilhante foi capaz de produzir. De alguma forma pode-se resumir linearmente na escrita da seguinte forma: Apple, Xerox, NeXT,  iMac, Pixar, iPod, iTunes e finalmente iPad. 
Dito de outra forma são todos os nomes das tecnologias em que ele esteve envolvido e criou e se tornaram produtos que mudaram modelos instalados nas pessoas no final do século XX e início do século XXI.
Porém, existem outros aspetos interessantes que o documentário aborda. Por exemplo, a caligrafia e o budismo como influências na construção dos produtos que Jobs idealizava. O facto de sabermos que inicialmente a sua primeira aposta empreendedora foi uma companhia de telefones. Que ele e Bill Gates foram grandes amigos, mas depois a rivalidade entre a Microsoft e a Apple os levaram a tornarem-se apáticos um com o outro. Algo que poderá ser melhor percebido na única entrevista que deram juntos.


Por outro lado, conhecemos melhor a sua personalidade que se caraterizava por ser extremamente exigente, empreendedor, inovador, génio e de ruptura.  E isso é muito bem notado no desenvolvimento da narrativa que faz uma retrospetiva da biografia do homem que mudou o quotidiano do trabalho, lazer e comunicação humana. 
Além daquilo tudo encontramos testemunhos diretos de "Ronald Wayne, co-founder of Apple Computer, Co. with Jobs and Steve Wozniak; Bill Fernandez, who is credited with introducing Jobs to Wozniak and was also Apple Computer's first employee; Robert Palladino, calligraphy professor at Reed College whose classes Jobs acknowledged with inspiring his typography design for the Apple Mac; Walt Mossberg, who covered Jobs as the principal technical journalist for The Wall Street Journal; Dean Hovey, who designed the mouse for Apple; Robert Cringley, who interviewed Jobs for his documentary Triumph of the Nerds; and Dr. Alvy Smith, co-founder of Pixar Animation Studios, which Jobs acquired in 1986."
Para quem quiser saber mais um pouco sobre Steve Jobs este documentário é um bom recurso para isso. Morreu a 5 de Outubro de 2011.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Agnosticismo é uma benção

Demorei mais de um ano a ler o livro de Richard Dawkins The God Delusion (2006). Tal aconteceu, por variadas razões, mas a principal é que a narrativa do livro não me foi cativando e, assim, lia e quando o punha de lado, passava muito tempo até pegar nele outra vez. Contudo, uma teimosia levou-me a ler o livro até ao fim, o que acabou por acontecer hoje.




Creio que a teimosia estava a tentar encontrar no livro alguma resposta mais concreta para a minha opinião sobre a não existência de deus, isto é, eu sou ateu, ou melhor era. Acabei foi por encontrar uma tese que melhor nos explica a religião como um todo.
Muitas vezes essa opção, ser ateu, pode ser um preconceito, pode ser vista pela sociedade - maioritariamente católica - como algo incomum -, ou até como já aconteceu na Idade Média, obra do diabo. E por isso a Inquisição em nome do seu deus, fez das maiores atrocidades - além das Cruzadas e outras - que a igreja alguma vez cometeu.
Porém, ao ler o livro, e pelos argumentos lá apresentados por Dawkins, comecei a notar que ser ateu afinal pode ser motivo de orgulho e acima de tudo de liberdade. Porque comecei a sentir nesses argumentos um ponto de vista que se pode resumir muito facilmente: o facto de não se acreditar em deus ou qualquer outra divindade é a mais pura forma de livre arbítrio e existencialismo que podemos ter.
Consequentemente ao longo do desenvolvimento da leitura, no capítulo onde Dawkins nos explica pormenorizadamente o que é o Agnosticismo, as minhas ideias mudaram e essa é a principal sequela que eu posso tirar da leitura do livro.
Depois de ler as afirmações do autor, percebi de um forma melhor o que significa ser agnóstico e, creio, que para a minha estabilidade mental, psicológica e social é a melhor opção.
Dito de outra forma, a bíblia é um livro com mais de dois mil anos e o seu conteúdo teve um poder e impacto sobre o mundo como mais nenhum livro teve. Esse conteúdo está preenchido de argumentos - não científicos - sobre a origem do mundo, algo como um design inteligente feito por um ser sobrenatural que domina todas as coisas e as criou, etc.
Por outro lado, este livro de Dawkins é fundado numa série de argumentos científicos em muito relacionados com a ciência de Darwin, o evolucionismo. Um dos que me chamou mais a atenção foi o que está na página 200 do livro onde ele explica que existe uma falsa ideia sobre  a definição de Seleção Natural de Darwin. Sendo que aquela tese aponta mais em seleção de grupo. Para percebem melhor terão mesmo que ler o livro.
Em suma, a conclusão que cheguei é que nunca ninguém será capaz de provar a existência ou não de deus. Por essa razão e de forma a evitar conversas e discussões sobre criacionismo e evolucionismo que nunca vão levar a lado nenhum, o livro ajudou-me a decidir tomar a decisão de me tornar agnóstico.
Finalizando, existe algo no livro, nas últimas páginas, que nos fazem refletir sobre o mundo que foi criado à volta da utopia da igreja. A forma como existe um legado nas escolas e nas instituições familiares que influenciam as crianças na fase de entender o mundo que os rodeia. Este é um facto que me leva acreditar que se aqueles modelos mudassem, talvez o mundo se tornasse um mundo melhor. Porque, como Dawkins afirma no final do livro: "(...) when humanity is pushing against the limits of understanding. Even better, we may eventually discover that there are no limits"

terça-feira, 6 de março de 2012

X.TO - Documentário sobre as Aldeias de Xisto

Conheci o João Correia na primeira edição do So You Think You Can Pitch. No meio de todas as pessoas presentes, metemos conversa um com o outro e desde de então temos vindo a falar ocasionalmente. 
Devido a essas conversas, acabei por descobrir que ele planeou um projeto sobre as Aldeias de Xisto em Portugal intitulado X.TO, como fruto da investigação para a sua tese de Mestrado em Comunicação Multimédia na Universidade de Aveiro que se encontra no momento a frequentar. 


Desde de logo, o  João demonstrou uma vontade enorme em conseguir levar o trabalho avante e, por essa razão, realizou um pequeno vídeo em que explica os objetivos do projeto, as razões da sua escolha e, mais importante, a explicação da sua escolha de financiamento: o Crowd Funding


Dito tudo aquilo, passo a explicar a verdadeira razão deste post. Por um lado, quero ajudar o João a divulgar o seu projeto. Que considero que além de ser muitíssimo interessante,  no final vai-se obter um documentário recente, criativo e que poderá promover mundialmente esta caraterística da cultura portuguesa. Pelo que o João me disse através de uma conversa no facebook, as pessoas têm se mostrado muito participativas  e simpáticas em ajudá-lo. Percebeu a certa altura que é melhor deixar de ter um fio condutor, mas na minha opinião isso é bom. Porque mesmo depois de muito planeamento das fases de pré-produção, produção e pós-produção, apenas no terreno sabemos com o que contar. E muitas vezes isso leva-nos a obter melhores resultados.
Noutra vertente, quero pegar num exemplo concreto de alguém que recorreu ao Crowd Funding, que neste caso foi a plataforma PPL, para conseguir o financiamento necessário para o arranque. Que aliás aconteceu apenas há umas semanas atrás. 
Dito de outra forma, quero que aqueles que lerem este post sejam influenciados na decisão quando se encontrarem em dúvidas sobre se devem avançar com esta estratégia ou não. 



Assim, convidei o João a dar uma entrevista para o Arte de Se Exprimir. Através da mesma podem saber mais pormenores sobre o projeto, conhecer melhor o próprio João e as suas opiniões sobre o cinema, entre outros pontos. 
Resta dizer que podem acompanhar o desenvolvimento do projeto no seu blog de produção. Segue a entrevista:

1. Fala-nos um pouco de ti e sobre as razões que te levaram a escolher o cinema como área profissional?

Apesar de surgir como uma enorme influência no meu trabalho e na minha vida, o cinema não é a minha (única) área profissional. Pensando bem, não tenho qualquer área profissional definida, visto que os trabalhos que tenho desenvolvido até agora se desdobram entre várias áreas.
Estou de momento a terminar o meu mestrado em Comunicação Multimédia (ramo de Audiovisual Digital) na Universidade de Aveiro e também em rodagem para o meu projecto mais ambicioso até agora, o documentário sobre as Aldeias de Xisto.
Para além de uma enorme satisfação em apresentar um trabalho de qualidade, espero que este projecto me leve a concretizar outras ideias que tenho desde miúdo, como realizar uma longa-metragem de ficção científica.
É mais fácil terem uma noção de quem sou e o que tenho feito em www.joaopedrocorreia.com.


2. Sendo tu um jovem realizador, que opinião tens sobre o uso do digital no cinema em detrimento da película? Qual vais usar no teu projeto?

Acho que é o caminho lógico a tomar. Por mais nostálgico que o uso da película seja, o digital é bastante mais cativante. Para mim, filmar em película, para além dos constrangimentos financeiros, logísticos, etc., não acrescenta nada que eu não consiga fazer em digital, inclusive obter o grão tão característico da película. Como li algures, é "utilizar um ábaco para navegar na Internet".


3. Acreditas que em Portugal faz-se bom cinema?

Sem dúvida. Penso que a larga maioria dos espectadores não está ciente do que de melhor se faz no nosso país, principalmente devido à aposta das grandes cadeias como a Lusomundo em filmes de estúdio e não no cinema de autor. Mas quem realmente se interessa em conhecer mais arranja sempre forma de ver o que quer.


4. Explica-nos em pormenor o teu projeto que terá como temática as históricas Aldeias de Xisto em Portugal?

Gosto de descrever este projecto como um trabalho em constante mutação, que parte do conceito de Aldeia de Xisto, e vai explorando o que se passa nas Aldeias que vão estar presentes no documentário. Não há uma linha condutora definida, mas sim uma vontade de mostrar estas aldeias, as paisagens em redor das mesmas, e sobretudo, as pessoas que habitam nelas.
Já vi tradições que foram recentemente recuperadas, desabafos em relação a dívidas por saldar, o incómodo do imigrante que, apesar de bem intencionado, foi parar no centro da má língua, e muito mais. Até terminar a edição do documentário será impossível definir uma temática menos abrangente que "Aldeias de Xisto em Portugal". Mas até que nem me desagrada, tenho novas surpresas à minha espera em cada aldeia que visito.


5. Quais foram as razões que te levaram a escolher esse tema?

Querer partilhar com outras pessoas o que é viver numa aldeia. Eu cresci, vivi e ainda vivo numa aldeia. Como vivo no concelho de Arganil, apontei inicialmente o Piódão como o centro do documentário, mas devido à construção peculiar da mesma e de residir no centro da rede das Aldeias do Xisto, alargar a rodagem a outras aldeias pareceu-me ser a decisão mais lógica.


6. Um dos factos que te pode distinguir enquanto alguém que ainda está a começar na área, foi o recurso ao Crowd Funding para conseguires financiamento para o teu projeto! Acreditas que é uma alternativa às fontes de financiamento tradicionais?

Sem dúvida. Se o projecto de Crowd Funding for bem planeado, tiver potencial e demonstrarmos paixão pelo trabalho que pretendemos realizar, certamente não faltará quem esteja interessado em apoiar o projecto, que foi exactamente o que sucedeu no meu caso. Como em qualquer caso, é tudo uma questão de ambição, esforço e um pouco de sorte. Não digo que se recorra apenas ao Crowd Funding para alavancar o projecto, até porque no meu caso recorri também à ajuda da ADXTUR, que gere a rede das Aldeias do Xisto, que me conseguiu oferecer soluções que o "dinheiro não compra".

7. Explica-nos todo o processo para conseguires atingir toda a totalidade monetária e as dificuldades que sentiste?

Criar uma campanha de promoção online através do meu website e várias redes sociais, apostar na qualidade do vídeo que encabeça o projecto, contactar pessoas com grande influência online para me ajudarem a promover o projecto, passar horas e horas agarrado ao telefone a pedir apoios a tudo o que se mexe e nunca descartar uma possível opção de apoio do projecto. E claro, nunca esquecer os nossos entes queridos, amigos, etc., porque se as pessoas mais próximas de ti não acreditarem no teu projecto, quem irá?

8. Sentiste abertura por parte das pessoas em apoiar este tipo de causa? Mesmo tendo elas sempre no final algum tipo de compensação pelo apoio dado?

Sim. Para ser sincero, fiquei surpreendido pela enorme vontade que as pessoas que contactei tinham em me apoiar. Talvez tenha sido pela forma como abordei o projecto ou pela temática do próprio projecto. Mas tive sempre uma reacção positiva em relação ao projecto.

9. Explica-nos a metodologia das compensações para os apoiantes do projeto?

É um processo bastante simples. No meu caso, tinhas 10, 20, 40 ou 50€ que podias doar. Quanto mais doasses, mais contrapartidas terias. Por exemplo, 10€ de doação davam-te acesso ao download do documentário e a estares presente nos créditos do mesmo.

8. E que material é que vais comprar com o dinheiro que conseguiste?

Na altura consegui adquirir um apoio de ombro para suportar o equipamento, um microfone, uma objectiva fisheye de 8mm e um monitor externo para ligar à máquina. Todo este novo equipamento veio acrescentar um novo leque de possibilidades que não estavam ao meu alcance antes das doações chegarem. Contudo, apostei sempre que possível no DIY (Do It Yourself), construindo parte do equipamento que utilizo durante as filmagens, tal como o suporte para o microfone.

9. O Crowd Funding foi a única forma que tiveste para arranjar dinheiro para o projeto?

Sim e não. O Crowdfunding abriu-me as portas para conseguir recolher apoios fora desta iniciativa, mas que provavelmente não teria conseguido sem o alcance da mesma.


11. Que tipo de apoio tens obtido da parte da Universidade de Aveiro?

A enorme paciência e conselhos do meu orientador, todo o material de iluminação presente no documentário e a disponibilização de uma sala para a projecção do documentário na antestreia do mesmo.

12. Para quando está previsto o lançamento do documentário?

Finais de Junho de 2012, mas tal como as diferentes histórias das aldeias, há sempre surpresas inesperadas.

13. Esperas ter reunido no auditório, no dia da estreia, todas as pessoas que apoiaram o projeto?

Não. Algumas das pessoas vivem bastante longe, estando uma a residir fora do nosso país. Mas acredito que não seja por falta de vontade, mas sim pela impossibilidade de se deslocarem a Aveiro.

14. Que palavras gostarias de deixar a essas pessoas?

Como tenho vindo a dizer desde o primeiro dia do projecto de Crowd Funding, obrigado por todo e qualquer apoio. O projecto ganhou novas proporções com a ajuda de pessoas generosas e que apostaram em mim e no meu trabalho. É sempre bom ver o nosso trabalho reconhecido e valorizado. Espero corresponder às expectativas de todos eles, ficaria bastante feliz.


P.S. Como alguns devem ter notado as palavras escritas ora estão escritas com as regras no Novo Acordo Ortográfico e outras não. Isso deve-se apenas a eu já ter aderido e o João não. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Óscars 2012, o cinema pode ser reiventado

E sempre houve mais este ano, tal como tinha finalizado no post do ano passado sobre a maior cerimónia do cinema mundial. Ao contrário do ano passado, não passei uma noite mal dormida na noite do direto. Pensei depois, ainda, em ver em indeferido, mas nem isso me apeteceu fazer. 
Creio que a razão que me levou a fazer isso foi algumas das razões que apontei no post do ano passado. Isto é, a falsidade e ocultação que muitas vezes pode haver (há?) na escolha dos vencedores que são influenciados pelos opinion makers. E a não inserção de grandes filmes de qualidade nos candidatos, tal como considero que aconteceu com Tyrannosaur (2011).
Contudo, depois pelo que fui vendo e lendo nos media acabei por ficar surpreendido com os resultados. Passo a explicar porquê.


Além da mais que mostrada perna de Angelina Jolie, nos Óscars deste ano houve uma celebração e homenagem ao cinema como tecnologia com história e valor artístico. Como uma arte capaz de se reiventar e surpreender. Segundo escreveu Serge Daney , o françês crítico de cinema:
“…The train in the La Ciotat station still keeps arriving, a century later. It’s still possible to put oneself in the position of the frightened spectator, which means that there is something in cinema that is of the past but not past”
Por outras palavras, os grandes vencedores da noite mais esperada pelas estrelas de Hollywood foram The Artist (2011) e Hugo (2011).  Que têm em comum a capacidade de nos mostrar que o cinema ainda é um meio capaz de nos surpreender. Por outro lado, sugere que é imortal e cíclico.  
Não deixa de ser curioso que o primeiro seja um filme a preto e branco. Com recurso a poucos diálogos, uma aposta forte na soundtrack na criação emotiva de experiência, caracterizado pela coragem de Michel Hazanavicius em realizar um filme com aquele guião. Tal como escrevi na análise que fiz ao mesmo aqui no blog, na minha opinião mereceu os prémios de Melhor Filme, Melhor Realizar e  Melhor Ator.
Por outro lado, o segundo é uma aposta na nova estratégia de Hollywood do 3D, embora eu o tenha visto em 2D. Contém no seu argumento uma homenagem a uma das personagens mais importantes da sétima arte, George Méliés. Além disso, é uma película que tenta mostrar a capacidade de imaginação e magia do cinema na mente dos espetadores. Algo que Méliés conseguiu efetivamente criar através da exploração da sua criatividade, tecnologia e arte e que Scorcese conseguiu de uma forma perfeita representar. 
Tudo aquilo, de uma forma resumida, foi o que escrevi também numa outra análise ao filme e, também por isso, considero, indubitavelmente, que mereceu os prémios de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Fotografia.
Finalizando, creio que tudo aquilo é uma prova de que o cinema ainda é capaz de reinventar, mesmo quando alguns falam da sua decadência de criatividade ao longo dos anos pela razão das repetidas sequelas que tem realizado. 



Podemos também entrar mais profundamente nas diferenças entres os dois filmes. Algo que foi muito bem explicado por Adam Cook num artigo para o notebook do MUBI. Diz ele o seguinte. "Hugo is a 3D/color/American “blockbuster” shot in Paris and London and The Artist is a 2D/black and white/French “festival” film shot in Hollywood." E continua dizendo que eles têm alguns aspetos em comum como: o franco conhecimento de cinema dos dois realizadores; que os dois filmes apresentam-se como uma resiliente (elástico)  força e implícitos argumentos que o cinema como tecnologia altera a forma de fabricar a arte e, assim, o cinema consegue evoluir e sobreviver e depois aponta mais analiticamente características (as que estão escritas na citação acima); técnicas que diferenciam os dois. 
Quanto a mim, e de forma a finalizar o post, apenas estou contente por a cerimónia dos Óscars deste ano e todas as pessoas responsáveis tenham sido capazes de homenagear o cinema tal como ele é, ou seja, uma forma de arte. E que Michel Hazanavicius e Martin Scorcese tenham ganho os prémios e com isso o mérito reconhecido. 

Dark