quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Silêncio de Scorcese

A euforia dos Óscars anda aí e mais uma vez  o prémio desiludiu-me nas suas nomeações ou melhor nas sua não nomeações. Porém Silence (2016) por Martin Scorcese foi nomeado. 
À frente disso, gostava de falar do filme que estreou recentemente. 

O romance de Endo ocorre num período em que o cristianismo estava gravemente em perigo no Japão. O acolhimento inicial dos missionários estrangeiros pelo Shogunato, que permitiu o estabelecimento de seminários e conversões em massa, foi seguido por uma contestação oficial após a Rebelião de Shimabara (1637-38) e a perseguição de clérigos e leigos. 

Frente à ameaça de morte, dois sacerdotes jesuítas recém-chegados de Portugal, Rodrigues e Garupe (interpretados no filme por Andrew Garfield e Adam Driver, respectivamente), entram no Japão para investigar os relatos de que seu mentor, Ferreira (Liam Neeson) Apostatado sob coação. Ali, eles testemunham em primeira mão a fé dos cristãos japoneses - ou a fé fracassada, como no caso de seu guia, Kichijiro (Yosuke Kubozuka) - bem como a perseguição enfrentada pelas mãos do inquisidor Inoue (Issey Ogata), que supervisiona uma cerimonia formalizada de renúncia em que os católicos são convidados a atropelar a imagem esculpida de Cristo.








Baseado na obra literária (que estou a ler) com o mesmo nome e de Shūsaku Endō. É a história de dois padres portugueses que vão para o Japão do século XVII à procura do seu mentor e na procura da verdade sobre a sua possível morte ou não!


Quando chegam lá dão conta de um Japão devastado, fechado sobre si mesmo e onde os Cristãos não podiam existir e são perseguidos pela inquisição japonesa.
As actividades de evangelização foram iniciadas em 1549, um dos primeiros a chegar foi Francisco Xavier e depressa no tempo, cerca de 300 mil japoneses tinham-se convertido.


Porém, o poder da altura começou a ver o papel dos missionários como ameaçador, porque eles acreditavam mais nas palavras, opiniões do Papa, para tomar as suas decisões do que em si próprios. 
Nesse sentido foi banido do território japonês todo e qualquer sinal cristão. E a sua celebração era completamente proibida, dando assim origem aos Cristão Escondidos (kakure kirishitan). São estes que os dois missionários encontram e com eles começa toda uma busca pela fé. 





De alguma forma o que tentei escrever foi a sinopse do filme. Mas na verdade mais pode ser dito. Tenho quase a certeza que li em qualquer lado que Scorcese demorou 28 anos a realizar este filme. O livro foi escrito em 1966 e pelos vistos fez parte da lista de Scorcese e daí a sua adaptação ao cinema. 

No seu todo, temos uma obra poética sobre a procura de nós mesmos. A necessidade de acreditar no ser superior para pensarmos que a nossa existência tem mais noticiabilidade. Mas o existencialismo vai na percepção do que podemos encontrar na luz ou nas trevas. Traçando uma análise que acreditar é uma decisão que manifesta na realidade em silêncio. Pois se pensarmos bem,  mesmo para aqueles que acreditam, deus nunca falou com ninguém pessoalmente e que esteja vivo. 

A verdade é que este filme ganha mais sabor por estar de alguma forma inserida no melhor momento da História portuguesa. 
Nós descobrimos o mundo, com outros, principalmente espanhóis e holandeses. Tentamos daí evangelizar a palavra de deus em território desconhecido. 
Durante o filme ouvimos algumas palavras em português que em pronuncia anglo saxônica não cai muito bem, mas é assim.

Nós não temos que olhar duro para encontrar em Silence, que se une a The Last Temptation of Christ (1988) e Kundun (1997) no subconjunto de filmes de Scorsese que falam explicitamente sobre as variedades da experiência religiosa. 




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Everyman, de Philip Roth

Pensar sobre a morte nunca vai ser fácil. Pensar sobre aquilo que já nos está impingido à partida no nosso nascimento. É uma ambiguidade na vida que temos. 
Mas a verdade é que enquanto vivemos nunca pensamos muito sobre a morte, preocupamo-nos mais em viver.  
Por isso é interessante ler, por vezes, livros sobre o tema em questão. Neste caso falo de Everyman (2006) de Philip Roth. 



Ao começar a ler o livro tornou-se obrigatório saber mais sobre o seu autor. Roth é um dos escritores mais premiados da sua geração. Incluindo um Pulitzertrês PEN/Faulkner Award e um Franz Kafka Prize
Eu não sei exatamente o que significa tantos prémios na literatura, mas sinto que algo de bom deverá ser. Principalmente para quem procura  no meio uma forma de refúgio. 
Novamente Roth, tem uma forma de escrever sobre a sua particularidade, uma forma de escrita autobiográfica. E ao mesmo tempo uma forma filosófica e insolente de formalmente distorcer a realidade da ficção. Por outro lado não teme pelas palavras e atira com os palavrões como se fossem palavras que se utilizassem em todas as circunstâncias. 
Tem uma  forma de escrever diabólica.  O livro é uma metáfora entre a morte e a ciência? Foi o que pensei a certa altura da leitura!

A forma de escrever está patente numa liberdade machista. Que fala da morte com prazer macabro, porque a consegue contextualizar, em certa parte do livro, com um tempo de guerra. 
Por outro lado generaliza e fala do poder económico dos judeus, mas também o que eles sofreram na guerra. Pode ser uma metáfora? Perguntei-me! O judaísmo faz parte da sua tradição familiar, daí notar-se essa marca na escrita. 

No livro que fala sobre a morte de uma pessoa, provocada por uma doença hereditária, a morte assume-se como se a doença fosse simbólica da maldição sobre todos os seres vivos. A morte é inevitável.  
A forma como Roth descreve a doença (logo o mal inevitável) e vai avançando. Como faz com que a personagem mude de personalidade. Como descreve a sua força de viver e a forma como ela é sugada pelo vírus de uma doença, capaz de uma dor angustiante.  Manifesta na dor pelas palavras mais simbólicas com a podridão a que todos chegamos. Uma forma muito emotiva que o escritor tem de descrever o processo da morte. Ou as várias formas que ela pode manifestar. Num monólogo quase imperceptível. Que nos toca particularmente. Obriga-nos a pensar.

E pensamos sobre essa escriba grotesca de um momento real de submissão humana a algo que o controla e faz ter este tipo de comportamento. O escritor não tem medo de usar palavras fortes, capazes de chocar pela realidade a que transmite. Uma forma de Roth provocar o leitor. Pois todo o livro é provocativo. 
Referencia a uma parte do livro, no momento em que fala do amigo que faleceu. Pois é preciso fazer um jogo de memória. Relembrar o que já foi lido, mas ao mesmo tempo chegar a uma recordação de vida em que percebeu - percebemos -  o que é a morte. A forma como se tem que lidar com ela. No momento em que ela nos bate à porta.

A vitalidade do amor numa pessoa doente. É uma pessoa viciada no fazer bem às pessoas doentes através da obtenção de prazer sexual. Uma forma terapêutica que o autor descreve de forma soberba neste excerto. 
He was not the first patient to fall in love with his nurse. He was not even the first patient to fall in love with


Maureen. She'd had several affairs over the years, a few of them with men rather worse off than he was, who, like him, made a full recovery with the help of Maureen's vitality. Her gift was to make the ill hopeful, so hopeful that instead of closing their eyes to blot out the world, they opened them wide to behold her vibrant presence, and were rejuvenated.
A forma grotesca de como descreve a morte. Aquilo que nos faz sentir ao ler estas palavras.
But she was pale with helplessness and couldn't stop the tears from running down her face: she wanted her father to be the way he was when she was ten and eleven and twelve and thirteen, without impediment or incapacity – and so did he.


A perda da beleza natural com o percurso natural da idade. Conforme ela avança vamos mudando as prioridades. O que dantes nos preocupava era o aspeto exterior, numa idade mais avançada o que interessa é o interior.
Manifestação de raiva pela família na forma como ele existiu. Quase como se afirmasse que tudo que levou àqueles momentos não podia ter-se passado de outra forma. Temos que aceitar a vida como ela é. Ou melhor, como ela se desenvolve com as nossas ações e decisões.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake

O filme vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes I, Daniel Blake (2016) é um manifesto ao fim da vida ajuntada com a burocracia das sociedades que vivemos.
A história centra-se em Daniel Blake, um homem que depois de uma vida de trabalho, vê-se preso no desconhecimento da evolução tecnológica e o que isso se torna um problema para ele. 
A sua figura simples contrasta com a complexidade daquilo  que lhe pode tirar tudo até a dignidade.
Mas mesmo sem ela, consegue entrar na vida de uma família e ser pai e avô ao mesmo tempo.






Ken Loach já é a segunda vez que recebe a Palma de Ouro, depois de a ter conseguido com The Wind That Shakes the Barley (2006). É um realizador focado no socialismo  e a que cada parte, em particular, se desenrasca naquele todo.
A sociedade é um todo composto para suster a vida normalizada. Mas ao olhar para cada unidade em particular, percebemos o que pode ser uma injustiça sobre o que foi dado e o que foi recebido.
Em suma, o filme foca-se de forma quase documental na vida de uma pessoa que podia ser qualquer um de nós. Uma pessoa que vive na sociedade, mas a sociedade parece não viver para ele. Denuncia aquilo que existe em todos os países, entre as pessoas mais pobres e incapazes por vezes de sobreviver. É o mundo em que vivemos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Proust Era Um Humorista

Marcel Proust (1871-1922) foi um escritor françês, cuja obra prima é o colossal Em Busca do Tempo Perdido tendo como título original  À la Recherche du Temps perdu . Uma obra de sete volumes escrita por Proust e alguns dos seus volumes foram publicados após a sua morte solitária, pois nesta altura da sua vida , vivia completamente isolado.
Esta personalidade assenta também num homem homosexual que pertencia há burguesia francesa. Que viveu com o problema da Asma desde criança e é considerado um dos maiores romancistas do século XX.





The Lemonine Affair (Pastiches et mélanges (1919) aparece num período em que Proust ainda socializava e frequentava os saloon da Mme Straus. O livro é escrito na forma da arte novella ou como está escrito no titulo original Pastiches. 
O conteúdo do livro é o escândalo causado por Henri Lemoine, o homem que afirmou que conseguia produzir diamantes a partir do frio. 
Na verdade é que ele conseguiu mesmo que pessoas investissem no seu projeto e um deles foi mesmo Marcel Proust.
O absurdo da situação é explorada por Proust nesse sentido. Escreve na forma literária de outros escritores franceses como Flaubert e Balzac. Até moca dele mesmo.

“Like a bouquet, they brought Lucien the news, presenting me with the denouement of the already
“sketched play, that their friend Marcel Proust had killed himself after the fall in diamond shares, a collapse that annihilated a part of his fortune. A curious person, Lucien assured us, that Marcel Proust, a being who lives entirely in the enthusiasm, in the pious adoration, of certain landscapes, certain books, a person for example who is completely enamored of the novels of Léon Daudet. A”



É uma leitura pequena mas extensa nas ideias. Percebe-se a capacidade de descrição de Proust. Talvez uma característica que se possa encontrar noutros livros do escritor. Outra é  a particularidade de escrever sobre factos da sua vida pessoal. 
Foi uma boa introdução ao autor, pois nunca tinha lido dele nada antes. Um dos pontos mais negativos do livro tem a ver com as personagens ou o desconhecimento que temos delas.
A maioria delas pessoas com peso activo na história francesa. Então, para quem não sabe nada da história de frança é muito complicado.
Por essa razão, antes de ler o livro, será aconselhável tentar saber mais da história do país do croissant.
Porém a capacidade de Proust encarnar outros escritores e brincar com isso é mesmo literatura absurda.   

In the Stars