quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O preto nas artes visuais

No outro dia enquanto navegava na net, encontrei no BrainPickings referência a um livro que foi indicado lá como um dos mais importantes escritos no século XX sobre design gráfico. Toughts On Design (1972) foi escrito por Paul Rand - o americano modernista - (1914-1996), que por sinal parece ter sido uma figura importantíssima na área do design gráfico.

Paul Rand

Ao tentar saber mais sobre ele descobri um artigo que despertou o meu interesse. O que me leva a prestar atenção mais detalhada ao artigo foi a forma como Rand o introduziu: "TABOOS AND PREJUDICES HAVE LONG CREATED LIMITING barriers to experimentation and to meaningful work in the graphic arts. In this paper I should like to attack one particular prejudice—that against the color black.". 
Aquela citação levou-me a pensar na importância das cores no design e como os preconceitos sobre essas muitas vezes pode prejudicar o trabalho de um designer. Levou-me também a querer saber quais são esses estereótipos que Rand quer contrapor.
Também quero ter  um arquivo aqui no blog sobre este tema. De forma a ter mais tarde um texto que me possa ajudar em futuros trabalhos em que tenha que recorrer a esta análise. Nesse sentido, decidi analisá-lo de uma forma mais profunda. Além disso, devo anunciar que o artigo ficou bastante extenso e na sua generalidade é uma tradução do artigo de Rand (o que pode fazer com que tenha alguns erros de semântica ou sintaxe, mas tentei ao máximo que isso não acontecesse). Porém, considero que contém ideias deveras importantes para todos aqueles que se interessam por estes temas como eu.



O artigo originalmente foi publicado no livro Graphic Forms: The Arts as Related to the Book (1949) e foi reimprimido no A Designer’s Art (1985). Começa logo com uma citação do poeta françês Rimbaud: "Vowels: black A, white E, red I, green U, blue O, Someday I shall name the birth from which you rise: A, a black furry corset of loud flies Boiling where the cruel stenches flow…"
Rand começa por nos explicar que o poeta utiliza as palavras para simbolizar-se com a carnalidade, a morte e a decadência. Com o tempo esta associação da cor preta com a morte levou à sua condenação na arte como sendo deprimente e sinistra e, portanto, deve-se evitar. Assim, como consequência, o poder e utilidade do negro deve ser evitada, limitada ou mal compreendida por designer, arquitetos entre outros durante o século XX.
Claro que estamos a falar de 1949 e nos dias de hoje creio que o preto já assumiu uma nova importância na criação visual de identidades e imagens. Talvez aquela ideia até seja um bom motivo para mais tarde escrever um post aqui no blog.
Para contrapor aquela visão da época, Rand começa por explicar a importância do preto na Natureza. Então diz-nos que a cor branca é a companheira da preta e as duas são justapostos drasticamente entre o contraste do dia e a noite. Já que a ininterrupta escuridão ou a luz do dia contínua seria intolerável. 
Por outro lado, o preto serve para desencadear subtilmente o brilho das folhas verdes ou a cor do Outono.  É um exemplo que nos leva a crer na importância desta cor, que juntamente com o branco, nos faz admirar a natureza em todo o seu esplendor. Ela está presente na sombra, na luz, nas cavernas e desfiladeiro. Por outras palavras, é uma cor natural que está presente em toda a natureza.
Tenho que concordar plenamente com os parágrafos acima, pois recentemente dei-me a experimentar o black&white na fotografia e os resultados têm sido muito bons, como podem comprovar na fotografia abaixo. O que me leva a crer que esta é uma técnica poderosa quando bem utilizada na fotografia ou design gráfico.

http://www.artedeseexprimir.net/fotografia/momentos

Apontando outros argumentos, Rand afirma que as cores naturais estão integradas, o que faz com que participem na reflexão das cores que as rodeiam. E o preto, de uma forma modesta, fornece um perfeito fundo para as cores naturais. Consequentemente, o preto tem sido muito bem compreendido na utilidade diária. Já que nos E.U.A e Europa o preto foi de longe a cor utilizada nos carros, nomeadamente os de fruição. Por outro lado, o preto é a cor fúnebre ou até a cor da roupa interior feminina tornando-a sensual e elegante.
Rand continua dizendo que se olharmos de uma forma mais profundamente psicológica para o preto, ele está ligado com mistério: com a morte é incognoscível, com a noite é cheia de coisas escondidas - ou medo ou mágico.
Finalmente, em alguns países o preto ou quase preto tem sido empregado de uma forma extensiva em arquitetura ou em design de interior. Por exemplo, o padrão de coloração das casas japonesas é baseado no contraste entre o uso do escuro e materiais de luz. A madeira escura muitas vezes delineia muitas vezes a básica estrutura da casa e separa-a esteticamente das luzes coloridas das partições (fusuma) e os tapetes (tatami).

Exemplo de decoração de uma casa Japonesa (Fusuma)

Creio que até aqui, isto é, nas linhas acima escritas, podemos encontrar argumentos gerais e abstratos que Rand argumenta contra os preconceitos e tabus do uso do negro no design.
A partir daqui ele entra em exemplos mais concretos recorrendo para isso a ilustrações onde o preto foi utilizado de forma a reforçar a sua beleza, simplicidade e utilidade.
Na primeira das suas ilustrações, que mostra um edifico desenhado por Mies van der Rohe, o preto é um factor crucial para a sua estética. Os membros de ferro desta estrutura estão expostos e pintados de preto. O efeito disto é múltiplo: a estrutura está claramente definida, está colocada num dramático contraste para as paredes não pálidas do rolamento do tijolo, a maior parte dos seus membros é reduzido fazendo-os parecer leves e delicados. Assim, uma grande elegância é conseguida sem recurso a materiais caros ou decoração. Finalmente, a contenção e a serenidade do preto faz com que a construção do edifício pareça um oásis no coração caótico da cidade.

Edifico desenhado por Mies van der Rohe 

Com aquela explicação, sem dúvida, que é compreendido que como a qualquer cor, o valor do preto depende da maneira como é utilizado. O preto será sempre lúgubre, ou brilhante ou até elegante dependendo sempre do seu contexto e da sua forma. Apesar do uso bem sucedido do preto, por exemplo no Japão, em edifícios e interiores modernos, ainda existem muitas pessoas que negam categoricamente o preto, diz Rand.
A seguir o americano modernista fala sobre um médico que escreveu sobre o uso das cores nos interiores sobre a forma de um aviso sinistro contra o negro: “This is the most dismal of all colors—it expresses all that is opposite to white.”   Edward Podolsky, The Doctor Prescribes Colors, pp. 48.
Para refutar aqueles argumentos, Rand afirma que este tipo de denúncia ignora completamente a natureza relativa de qualquer cor ou forma.
Para demonstrar aquele ponto de vista, recorre a Eisenstein que escrevendo sobre os filmes afirma: “Even within the limitations of a color-range of black and white … one of these tones not only evades being given a single ‘value’ as an absolute image, but can even assume absolutely contradictory meanings, dependent only upon the general system of imagery that has been decided upon for the particular film.” Eisenstein, The Film Sense, pp. 151-152.  
Em suma, o que Eisenstein afirma é que o significado e utilidade da cor depende apenas sobre o sistema geral de imagens que foi decidido para o filme.
Por exemplo, ilustra este ponto importante pela reversão do papel do negro em relação ao branco nos dois filmes: Old and New (1929) e Alexander Nevsky (1938). No anterior o negro significa coisas reacionárias, antiquadas e criminais enquanto o branco denota felicidade, vida e progresso, e que em Alexander Nevsky (1938); branco era cor da crueldade, opressão e morte e o preto está identificado com os guerreiros russos e, representa por isso, heroísmo e patriotismo. A resposta de Eisenstein para a surpresa e protesto dos críticos naquela inversão do simbolismo tradicional, foi citar Moby Dick, a famosa baleia branca já que o leitor deve lembrar-se que a brancura lívida, leprosa desta baleia simboliza o mal monstruoso e desconcertante do mundo.
Por outro lado, na Idade Média e Renascimento, o preto (com algumas notáveis exceções) foi tratado como um elemento linear ou foi associado com a modelação claro-escuro. Kahnweiler em The Rise of cubism (1949) diz: “Since it was the mission of color to create the form as chiaroscuro, or light that had become perceivable, there was no possibility of rendering local color or color itself.” Daniel-Henry Kahnweiler, The Rise of Cubism (New York, 1949), p. 11. 
Embora Kahnweiler esteja a referir-se à cor em geral, aquele testamento aplica-se ao preto em geral. No século XX as possibilidades de reprodução da cor como uma coisa em si mesmo e não primariamente como uma descrição tridimensional ou luz objetivada foi descoberta e explorada. Coincidente com esta tendência, o preto tornou-se um valor plástico positivo. Creio, que para entender melhor estes argumentos seria preciso fazer uma análise visual e científica a obras que contenham aquelas caraterísticas.
Finalmente, Rand refere que entre os artistas que usaram o preto como elemento vital no seu trabalho temos: Rouault, Braque, Miro, Leger, Arp, and Picasso. Beardsley, Masereel, e Posada, por exemplo, utilizaram-no exclusivamente.

Obra de Arp
Um desses artistas descreveu a obra acima da seguinte forma. "The black grows deeper and deeper darker and darker before me. It menaces me like a black gullet. I can bear it no longer. It is monstrous. It is unfathomable. As the thought comes to me to exorcise and. transform this black with a white drawing, it has aheady become a surface. Now I have lost all fear, and begin to draw on the black surface. I draw and dance at once, twisting and winding, a winding, twining soft white flowery round. A round of snakes in a wreath…white shoots this way and that…" Jean Arp, On My Way (New York, 1948), p. 52.
Com aquela citação Arp entende que o preto sozinho e fora do contexto é assustador, mas ele sabe também a sua potência uma vez que é formado e relacionado.



Uma outra ilustração que Rand contém no seu artigo é a pintura de Picasso Guernica. Para ele é um eloquente testemunho do poder expressivo do preto e os seus companheiros naturais que são o cinzento e o branco. Continua explicando que embora não saibamos a intenção de Picasso, podemos arriscar algumas afirmações sobre os efeitos mais evidentes alcançados pela substituição do preto, branco e cinza pelas cores habituais.
Isto é, a ausência das esperadas cores pictóricas dramatiza o impacto do trabalho. Além disso, a ausência de cor implica todas as cores, fazendo com que o espetador use a atividade das forças da sua imaginação por não dizer-lhe tudo.
O uso do preto, branco e cinza é um eufemismo que torna possível e suportável o horror e a violência das imagens. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele enfatiza a imaginação de uma forma brutalmente trágica. É provável que fora de questão naquele mural a preto e branco eles joguem os seus simbólicos papéis ancestrais. Eles são as cores primas não adulteradas na luta entre a vida e a morte.  
Outro argumento que Rand novamente recorre é o facto de durante muitos séculos pintores chineses e japoneses terem reverenciado (respeitado) o preto como cor. Na pintura japonesa, o preto (sumi) é muitas vezes a única cor empregada. Os artistas japoneses sentem que: “colors can cheat the eye but sumi never can; it proclaims the master and exposes the tyro.” Henry P. Bowie, On the Laws of Japanese Painting (San Francisco, 1911), p. 39. 
Para reforçar esta relação dos artistas japoneses com o sumi Rand evoca um famoso pintor japonês chamado Kubota que frequente expressava o desejo de poder viver o suficiente para ser capaz de descartar a cor totalmente e usar o "sumi sozinho por todos e quaisquer efeitos nas pinturas." Henry P. Bowie, On the Laws of Japanese Painting (San Francisco, 1911), p. 39.
Segundo ainda Rand, em 1860 escreveu: "I do not know whether the use of black for mourning prevents the use of it, in numberless cases, where it would produce most excellent effects.” M. E. Chevreul, The Laws of the Contrast of Color (London, 1883), p.54. 
Parece que aquela expressão foi pertinente no século XX como foi no século XIX. Já que muitos artistas gráficos ainda coibia do preto. Pois quando eram confrontados com nenhuma outra alternativa que não o preto, como na publicidade, em jornais ou publicidade muitas vezes eles aceitam a contra gosto e fazem pouco esforço para descobrir ou desenvolver as suas potencialidades.
No entanto, as qualidades físicas e psicológicas discutidas até agora em relação à arquitetura e pintura são igualmente importantes para as artes gráficas: publicidade, design de capa e tipografia. De forma a ilustrar isso Rand utiliza vários exemplos do uso do preto nos seus trabalhos.


A primeira das suas ilustrações é um fotograma de cover design. Embora o fotograma seja uma imagem tecnicamente de luz e sombra de um ábaco, é essencialmente um padrão de formas claras e escuras que parecem mover-se verticalmente ao longo da sua superfície. Porque o fotograma é uma abstração das qualidades plásticas do objeto que se torna mais importante do que as suas literais (opostos).  O fotograma atingiu o estatuto de forma legítima de arte como trabalho do trabalho pioneiro realizado por pessoas como Man Ray ou Moholy Nagy, desde de então tornou-se cada vez mais popular no campo gráfico.
Uma das forças primas do poder visual do fotograma foca-se no seu preto, branco e cinzento tonalidades. O fotograma retrata um mundo de luz, sombra e trevas povoado por misteriosas formas sugestivas. A capacidade destas formas para estimular associações variadas e imaginativas na mente do observador é ameaçada quando o fotograma é processado em cores. Ele ainda pode ser um trabalho efetivo de arte, mas o seu poder evocativo peculiar pode ser destruído.  


Um outro exemplo que Rand apresenta no seu artigo é um trabalho tipográfico que é a capa de um catálogo  para a coleção  Arensberg Collection que ele projetou para o Art Institute of Chicago. A capa é constituída por uma séries de contrastes, a mais importante das quais é a de preto e branco. Em conjunto as duas agem em sentido como cores complementares. Chevreul descreveu-os como tal,  porque quando eles são justapostos cada um se torna mais vivido. Isto, diz Chevreul, é devido ao facto de a luz brilhante refletida  pela área branca anular a luz refletida a partir da área preta. Isso faz com que o negro pareça preto e o branco mais brilhante.
A tensão entre o branco e o preto na capa é agravada por se opor a uma grande área de preto para uma pequena área de branco. O tema de contraste é realizada mais pela variação drástica do tamanho das letras.  A rugosidade das bordas do grande A enfatiza a nitidez das letras menores A, e o extremo das letras diagonais são neutralizadas pelos ângulos retos do livro em si. Mas o elemento mais dramático de contraste reside na utilização de preto e branco. Os dois tendem a emprestar dignidade e elegância para a capa do livro, mas o contraste vigoroso entre os dois dá uma qualidade poster-like.
Thomas B. Stanley no livro The Technique of Advertising Production (1947) disse:  “While color has high attention value on short exposure, psychological tests indicate that the longer the time during which advertisements are examined, the more a black and white treatment tends to regain the attention lost at first glance to a color competitor.”. 
E com esta afirmação termina a análise ao trabalho tipográfico.




Muitos anunciantes e artistas publicitários sentem que que um anuncio torna-se mais colorido em proporção à quantidade de cor utilizada no mesmo. Rand considerava isso falso. Explica que cores limitadas quando combinadas com o preto e o branco fornecem um fundo brilhante, mas neutro e é muitas vezes mais eficaz do que o uso de muitas cores. Além disso, a tendência do preto e branco para iluminar e animar outras cores, muitas vezes faz com que toda a cor usada ser mais articulada do que quando utilizada sozinha ou combinado com outras cores primárias ou secundárias. Isto é especialmente importante isto é especialmente importante no caso de cores escuras.
No anúncio para a loja Kaufman, que é a imagem acima, Rand escolheu o preto e branco combinado com uma forte luz rosa (que na imagem se pode ver a cinza) pelas razões que acima escrevi, bem como outros que Rand explica.
O preto foi usado para o ovo da Páscoa grande principalmente por causa das suas qualidades ambivalentes.  A combinação da forma do ovo, que é um símbolo literal de vida e também sugere a vida pela sua forma inchada de  respiração, com o preto, a cor da morte, tem um valor de choque. Assim, um ovo preto é um paradoxo. Por isso, o símbolo do ovo é muito mais marcante em preto do que se fosse apresentado na sua cor natural ou em qualquer outra cor.
O rosa claro, que é uma cor alegre e brincalhona torna-se mais eficaz quando justapostas com preto, novamente por causa do paradoxo associativo que a sua combinação produz e por causa da ação de brilho do preto. Além disso, o lettering fino e branco torna-se mais vivo quando definido sobre um fundo contrastante pesado.
Em suma, é impossível definir o frio sem o contrastando-o com o calor. É impossível compreender a vida se a morte é ignorada. O preto é a cor da morte, mas em virtude deste facto psicológico que é a cor da vida que define, contrastes, e melhora a vida, luz e cor. É através da consciência do artista sobre o negro como um elemento polar e, consequentemente, de sua natureza paradoxal que o preto como uma cor pode ser apreciada e usada efetivamente. Nem se deve esquecer que a neutralidade do preto torna o denominador comum de um mundo colorido.
Para Rand existia a necessidade de o artista se libertar de padrões de pensamentos tradicionais e convencionais, para que possa criar livremente como é óbvio. Segundo ainda o americano modernista, os preconceitos devem ser discriminados e novos caminhos ou velhos esquecidos devem ser explorados já uma das mais importantes funções do artista é alargar o nosso mundo visual. Eu diria mais, esta atitude também deveria por todos os artistas que ambicionam evoluir ou melhorar as suas obras. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ilustrando sobre a perspetiva da caneta

O video sem dúvida que se tornou uma arma muito poderosa na capacidade de o olho humano poder observar pormenores que até então não era possível. Mais fascinante é podermos ver como nasce do nada os traços que depois vão dar a obra final. As várias técnicas seguidas para criar diferentes objetos visuais, a forma como é dado volume a esses e como se usa diferentes tipos de ferramentas para esse fim.





É isso que podemos ver neste trabalho de Though Ronan e Erwan Bourouec que não são são artistas sequenciais, mas criaram no seu estúdio, com a ajuda de  uma câmara fixa, uma forma de filmar ilustrações  sobre as perspectivas das canetas. É um divertimento, quase vertiginoso vermos a caneta, o pincel, o marcador deslocarem-se ao redor das páginas ou telas para criar figuras básicas e complexas.
Mais ainda, acaba também por ser um making of do trabalho que, por um lado ajuda a perceber melhor a sua construção. Mas, por outro, mostra o quanto simples pode ser desenhar. Era uma ideia que todos os artistas deveriam seguir. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A nação digital

Digital Nation (2010) é um documentário open source feito pelo canal público americano PBS. É um trabalho que explora o que significa viver num mundo novo, isto é o mundo digital. Realizado por Rachel Dretzin conta com o apoio do jornalista de tecnologia Douglas Rushkoff. Aliás, foi através deste último que tive conhecimento do documentário, já que estou a ler o seu último livro PROGRAM OR BE PROGRAMMED Ten Commands for a Digital Age (2010). 


O trabalho incide muito sobre o território norte-americano, mas é sem dúvida um documento esclarecedor sobre os efeitos do digital nas sociedades, na educação e nas pessoas. Mais não seja por causa da influência que a hegemonia norte americana tem sobre o mundo, especialmente sobre a Europa e Portugal. Porém, extravasa a geografia dos E.U.A e vai até à Coreia do Sul para perceber os impactos dos vídeo jogos na sociedade coreana e nomeadamente nos seus jovens. 
Está divido em 9 capítulos e todos eles exploram várias vertentes onde o digital conseguiu ter impacto profundo nos modelos instaurados até então. Assim, segue-se um pequeno resumo de cada capítulo de forma a sistematizar todo o seu conteúdo. 

Douglas Rushkoff

No primeiro capítulo é analisado a forma como o multitasking nos distrai de tudo. Nesse sentido, é-nos dado os exemplos dos estudantes do M.I.T que se encontram como uns dos mais inteligentes estudantes do mundo e  dos mais ligados à rede através das ferramentas tecnológicas. 
No segundo, é levantada a questão do que todo este novo mundo digital nos está a fazer ao cérebro? Através de exemplos dos testes efetuados na Universiadade de Stanford a multitaskers. O que é mais pertubador são os resultados obtidos explicados por Clifford Nass: "We were absolutely shocked. We all lost our bets. It turns out multitaskers are terrible at every aspect of multitasking. They're terrible at ignoring irrelevant information; they're terrible at keeping information in their head nicely and neatly organized; and they're terrible at switching from one task to another."



O terceiro, fala da tal sociedade sul coreana que tem uma dependência patológica pela Internet e que até já se tornou uma crise de saúde pública. Isso é bem mostrado com exemplos de uma mãe coreana preocupada com a dependência do filho pela Internet. Ou até pelo campo de desintoxicação da Internet para onde são mandados os miúdos com problemas. Mas aponta também os problemas de saúde que surgem pelos compulsivos jogadores de video jogos, como por exemplo no World Of Warcraft.
Ainda sobre aquele tema temos os pontos de vista de James Paul Gee que diz que quando se trata de jogadores compulsivos é necessário fazer as perguntas difíceis sobre a vida real; e Henry Jenkins que afirma que tratando-se de gaming, não quer dizer necessariamente que seja uma perda de tempo. 


O quarto aborda o ensino aprendido através da tecnologia, já que os professores estão a abraçar os meios digitais nas salas de aula, já que com isso conseguem manter os alunos envolvidos na matéria e, ao mesmo tempo, dar-lhes novas habilidades para uma nova era. 
O quinto, levanta a questão sobre se esta geração é a mais burra de sempre, no entanto é um debate que ainda agora começou sobre a literacia dos novos media. 
O sexto fala-nos sobre as relações que se estabelecem na rede, focando um mega encontro de utilizadores do World Of Craft onde as pessoas conseguem interagir de forma a refutar que o digital leva ao isolamento social.  
O sétimo foca-se em mundos virtuais ou jogos online. Aqui é surpreendente o que nos é mostrado. Por um lado,  temos Philip Rosedale, criador do mundo virtual Second Life a afirmar que depois de estarmos lá dentro tudo é possível. Por outro, temos o exemplo da IBM que tem cerca de 10.000 empregados que se encontram regularmente para tratarem de assuntos profissionais em mundos virtuais. 


O oitavo olha para a utilidade da tecnologia digital nas forças aramadas norte-americanas e como certas experiências virtiais podem mudar o comportamento dos soldados e também para o seu uso na pilotagem de Drones (veículos aéreos não pilotados). 
Finalmente o nono capítulo interroga como os vídeo jogos estão a ser utilizados nas escolas como novas ferramentas de ensino. Interroga se as escolas estão organizadas à volta das mecânicas de jogo e alerta que os alunos estão a receber cognições que ainda não somos capazes de reconhecer e medir. Novamente existem abordagens interessantes neste capítulo de James Paul Gee, ao afirmar que até um jogo como o Grand Theft Auto pode ser educacional. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pensamento infográfico

A infografia é uma forma de comunicar visualmente. É mais ainda uma forma de representação visual de informação que precisa de ser explicada de forma mais dinâmica. É utilizada pelo jornalismo, mas também em mapas, manuais técnicos, etc. A combinação dos elementos num infográfico, que podem ser fotográficos, textuais ou desenho, adquirem muitas vezes formas muito complexas. 

Todos os direitos reservados a Francesco Franchi

De acordo com a Wikipédia (num artigo que me parece ser bastante fiável); as suas origens remontam à pré-história e foi utilizado por Leonardo Da Vinci, no estudo de embriões; e Charles Minard que criou um importante infográfico sobre a marcha de Napoleão sobre Moscou. 
Na guerra do Golfo a infografia teve a sua importância aumentada, que pela falta de fotografias, demandava uma expressão gráfica mais contundente. Com o aparecimento dos Macintosh, Windows 95 e o programa vetorial da Adobe, o Illustrator, a infografia catapultou as possibilidades do jornalismo. Onde nos dias de hoje, consegue cativar de uma forma não linear a atenção do leitor. 

Todos os direitos reservados a Francesco Franchi

Tudo aquilo, serviu para apresentar o Art Director da IL (Intelligence in Lifestyle) Francesco Franchi que é um pensador infográfico. O que me chamou a atenção nele, além do fabuloso trabalho em infografia, foi a maneira como ele afirma que o pensamento infográfico vai para além de imagens bonitas, já que cria uma experiência de leitura diferente e incentiva o pensamento crítico. 
Mais, ele afirma em declarações à Gestalten TV (conforme podem ver no vídeo que coloco mais abaixo); que não se trata apenas de construir alguns números e gráficos vetoriais parecerem inteligentes juntos, é uma linguagem narrativa - é representação mais interpretação para desenvolver uma ideia. 
Outra ideia de reforço, é a importância do conteúdo no design, já que é necessário ser informativo, mas também entreter o leitor. Para isso, Francesco aponta a importância de uma narrativa não-linear  na leitura de uma infografia, exemplificando que a infografia não são powerpoints e por isso não têm que ser necessariamente lineares. É a estrutura do storytelling infográfico que diferencia a qualidade do mesmo: já que diferentes caminhos para descobrir histórias ou factos diferentes, expostos daquela forma, pode ser uma experiência mais imersivo. 
Em suma, considero que este ponto de vista é imensamente interessante para perceber a importância da infografia. Pois, percebemos que a soma de todas as partes é que a tornam um todo artefacto de arte/informação. Isto é, um objeto capaz de captar a atenção do leitor pelo lado visual, mas também ser capaz de impregnar uma experiência mais profunda e crítica através de uma narratologia composta na mesma. 


sábado, 4 de fevereiro de 2012

O poder transformador da arte

Wasteland (2010) é um documentário realizado por Lucy Walker. Um trabalho extraordinário sobre um homem, Vick Muniz, com uma arte muito particular e original. Mas mais importante ainda é um documento sobre uma realidade brasileira e focado no espírito humano dos catadores (pessoas que trabalham com material reciclável, no maior aterro do mundo situado no Rio de Janeiro). Aquilo que nos distingue dos animais é a nossa humanidade e isso está bem patente neste documentário.


O ambiente onde se passa a maior parte da ação é o Jardim Gramacho. Segundo a informação passada no documentário, a maior lixeira do mundo e que recebe todos os resíduos da área do Rio de Janeiro no Brasil. Ao visualizarmos as captações feitas no local, deparamos com condições miseráveis da condição humana na ingrata luta pela sobrevivência. Pessoas que nunca tiveram muita sorte na vida, vasculham o lixo em busca de material reciclável para o poderem separar e ganhar dinheiro. 
Ao longo do desenvolvimento da narrativa, vamos conhecendo as suas dificuldades diárias, as suas histórias e mais admirável ainda o seu orgulho enquanto praticantes de uma profissão não reconhecida e descriminada.


Por outro lado, vamos conhecendo o lado humanitário, altruísta e solidário de Vick Muniz. O artista de origem brasileira, que na sua infância habitou a zona. Porém, sorte do destino ou por outra razão qualquer, nos anos oitenta rumou aos E.U.A e a sua vida mudou por completo. 
Tornando-se num dos maiores artistas da contemporaneidade (o próprio no filme afirma que é o brasileiro que no exterior ganha mais dinheiro no mundo); Muniz resolve regressar às suas origens de forma a começar o seu novo projeto e, ao mesmo tempo, fornecer algum tipo de ajuda àquelas pessoas. 


Na sua estrutura cinematográfica não existe grandes pormenores de destaque, também não podemos esquecer que é um documentário. Contudo, ao nível da criação da experiência emocional o filme ganha exponencialmente grandiosidade.
Por um lado, conhecemos a metodologia de um artista com acesso a recursos e uma imensa criatividade num processo artístico admirável. Por outro, a personalidade singular de pessoas que nada têm e, de repente, tornam-se parte de uma arte que viaja pelo mundo estando patente nas melhores galerias do mundo. 



Finalmente, aquilo que mais admirei na película é a concentração no lado altruísta do artista, mas também na sua personalidade enquanto ser único e inimitável pela sua arte e muito modesto. Por outro, o levantamento das aparências dos catadores enquanto seres humanos.
Ao longo do documentário, vamos percebendo que depois de retirarem toda aquela sujidade neles encrostada, são pessoas como qualquer um. Com sentimentos, inteligência e humanidade. E assim a arte consegue ter um poder transformador. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O sol e a lua, a love story

Este primeiro trabalho da produtora Racecar de seu nome Kiss (2012) é um trabalho independente sobre uma hipotética relação existente entre o sol e a lua. Tem um visual extremamente apelativo e consistente, embora na sua maioria seja monocromático.



É um trabalho de dois noruegueses, sediados em Oslo. Joseph Hodgson traz como background o design gráfico e o motion graphics e Franck Aubry experiência como VJ, músico e ilustrador. Pelo que me foi possível apurar esta é a sua primeira aventura juntos e o resultado não podia ter sido mais perfeito.
Num formato super widescreen o artefacto faz-nos viajar. O seu sound design é soberbo e a música de fundo intitulada Stille dos Bendik combina que nem uma luva na criação da experiência.  



Creio que ao nível do 3D ainda se pode notar uma imaturidade, no entanto nada que não seja perfeitamente normal. Melhor ainda será ler a frase de Paul Auster antes de ver a obra de forma a influenciar o seu visionamento: "The sun is the past, the earth is the present and the moon is the future." Porque também influenciou os criadores. 


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sony World Photography, abstração de fragmentos vivenciais

Sony World Photography é um dos concursos de fotografia mais prestigiados do mundo. Além de procurar enaltecer fotógrafos profissionais, foca-se também nos amadores. Nesse sentido, deixo aqui uma seleção das fotografias com mais impacto a concurso em 2012. 
Aquilo que podemos ver nesta seleção é a abstração de fragmentos vivenciais que se passam pelo mundo inteiro. As fotografias apresentadas exprimem um pouco daquilo que a todos os minutos, horas, semanas, meses e anos acontece pelo planeta terra. E estas fotos são o documentário desses momentos, embora sempre uma pequena amostra.  

Mattia Vacca
Laura Pannac
Helen Grace Ventura Thompson

Donald Weber/VII
Alexandr Afonin
Alejandro Cartagena
Giovanni Frescura
Natalia Belentsova
Pansiri Pikunkae
Paul Irving
Ricky Alexander
Rona Chang
Samuel Chan
Victoria Bolshemennik
Chan Kwok Hung

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