sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Everyman, de Philip Roth

Pensar sobre a morte nunca vai ser fácil. Pensar sobre aquilo que já nos está impingido à partida no nosso nascimento. É uma ambiguidade na vida que temos. 
Mas a verdade é que enquanto vivemos nunca pensamos muito sobre a morte, preocupamo-nos mais em viver.  
Por isso é interessante ler, por vezes, livros sobre o tema em questão. Neste caso falo de Everyman (2006) de Philip Roth. 



Ao começar a ler o livro tornou-se obrigatório saber mais sobre o seu autor. Roth é um dos escritores mais premiados da sua geração. Incluindo um Pulitzertrês PEN/Faulkner Award e um Franz Kafka Prize
Eu não sei exatamente o que significa tantos prémios na literatura, mas sinto que algo de bom deverá ser. Principalmente para quem procura  no meio uma forma de refúgio. 
Novamente Roth, tem uma forma de escrever sobre a sua particularidade, uma forma de escrita autobiográfica. E ao mesmo tempo uma forma filosófica e insolente de formalmente distorcer a realidade da ficção. Por outro lado não teme pelas palavras e atira com os palavrões como se fossem palavras que se utilizassem em todas as circunstâncias. 
Tem uma  forma de escrever diabólica.  O livro é uma metáfora entre a morte e a ciência? Foi o que pensei a certa altura da leitura!

A forma de escrever está patente numa liberdade machista. Que fala da morte com prazer macabro, porque a consegue contextualizar, em certa parte do livro, com um tempo de guerra. 
Por outro lado generaliza e fala do poder económico dos judeus, mas também o que eles sofreram na guerra. Pode ser uma metáfora? Perguntei-me! O judaísmo faz parte da sua tradição familiar, daí notar-se essa marca na escrita. 

No livro que fala sobre a morte de uma pessoa, provocada por uma doença hereditária, a morte assume-se como se a doença fosse simbólica da maldição sobre todos os seres vivos. A morte é inevitável.  
A forma como Roth descreve a doença (logo o mal inevitável) e vai avançando. Como faz com que a personagem mude de personalidade. Como descreve a sua força de viver e a forma como ela é sugada pelo vírus de uma doença, capaz de uma dor angustiante.  Manifesta na dor pelas palavras mais simbólicas com a podridão a que todos chegamos. Uma forma muito emotiva que o escritor tem de descrever o processo da morte. Ou as várias formas que ela pode manifestar. Num monólogo quase imperceptível. Que nos toca particularmente. Obriga-nos a pensar.

E pensamos sobre essa escriba grotesca de um momento real de submissão humana a algo que o controla e faz ter este tipo de comportamento. O escritor não tem medo de usar palavras fortes, capazes de chocar pela realidade a que transmite. Uma forma de Roth provocar o leitor. Pois todo o livro é provocativo. 
Referencia a uma parte do livro, no momento em que fala do amigo que faleceu. Pois é preciso fazer um jogo de memória. Relembrar o que já foi lido, mas ao mesmo tempo chegar a uma recordação de vida em que percebeu - percebemos -  o que é a morte. A forma como se tem que lidar com ela. No momento em que ela nos bate à porta.

A vitalidade do amor numa pessoa doente. É uma pessoa viciada no fazer bem às pessoas doentes através da obtenção de prazer sexual. Uma forma terapêutica que o autor descreve de forma soberba neste excerto. 
He was not the first patient to fall in love with his nurse. He was not even the first patient to fall in love with


Maureen. She'd had several affairs over the years, a few of them with men rather worse off than he was, who, like him, made a full recovery with the help of Maureen's vitality. Her gift was to make the ill hopeful, so hopeful that instead of closing their eyes to blot out the world, they opened them wide to behold her vibrant presence, and were rejuvenated.
A forma grotesca de como descreve a morte. Aquilo que nos faz sentir ao ler estas palavras.
But she was pale with helplessness and couldn't stop the tears from running down her face: she wanted her father to be the way he was when she was ten and eleven and twelve and thirteen, without impediment or incapacity – and so did he.


A perda da beleza natural com o percurso natural da idade. Conforme ela avança vamos mudando as prioridades. O que dantes nos preocupava era o aspeto exterior, numa idade mais avançada o que interessa é o interior.
Manifestação de raiva pela família na forma como ele existiu. Quase como se afirmasse que tudo que levou àqueles momentos não podia ter-se passado de outra forma. Temos que aceitar a vida como ela é. Ou melhor, como ela se desenvolve com as nossas ações e decisões.
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