sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Ideia de Europa


Li hoje o livro de George Steiner a Ideia de Europa (2005)  e as suas ideias em relação aos modelos que foram criados no continente durante séculos e qual o seu papel no futuro. A leitura foi interessante, porque mais do que nunca é importante perceber o que realmente faz a Europa, o que a caracteriza, quais os seus problemas e, finalmente, o seu futuro. 
Principalmente perante o cenário actual que vivemos, onde parece que o ideal europeu caiu por terra e onde caminhamos, hipoteticamente, para um futuro que muitos pensavam impossível de se repetir
Assim, de forma a não deixar que a minha opinião interfira com as ideias de Steiner, passo a apontar as partes que considero mais importantes a reter no livro. E que creio que devem servir para reflectir profundamente sobre a nossa atitude perante os problemas que passamos no momento. 

Página 44

"Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado"
Páginas 48

"Pode ser que o futuro da ideia de Europa, a haver algum, dependa menos de um banco central e dos subsídios à agricultura, do investimento em tecnologia ou de taxas alfandegárias comuns do que nos querem fazer crer"

Páginas 49

" O génio da Europa é aquilo que William Blake teria chamado « a santidade do pormenor diminuto» É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separado por entre vinte quilómetros, uma divisão entre mundos. Em contraste com a Jérsia às montanhas da Califórnia, em contraste com aquela avidez de uniformidade que é simultaneamente a força e vácuo de grande parte da existência americana (...)"

Página 50

"Nada ameaça a Europa mais radicalmente - «as suas raízes» - do que a onda detersiva  e imagem mundial uniformes que o Esperanto devorador traz consigo"

Página 51 e 52

"A verdade brutal é que a Europa se recusou, até à data, a reconhecer e a analisar, quanto mais a retractar-se, o papel diversificado da Cristandade na hora mais negra da História. Ignorou simplesmente ou apagou convencionalmente o enraizamento do seu anti-semitismo nos Evangelhos, no repúdio de Paulo do seu povo, nos inúmeros textos teológicos e ideológicos produzidos desde então (no início da década de 1520, Lutero exigia a morte pelo fogo de todos os Judeus). Enquanto a Europa não confrontar o veneno do ódio anti-semita que corre nas suas veias, enquanto não abordar em termos explícitos a longa pré-história das câmaras de gás, muitas das estrelas no nosso firmamento europeu continuarão a ser amarelas"

Página 53 e 54

"A dignidade do homo sapiens é precisamente essa: a 'percepção da sabedoria, a ' demanda do conhecimento desinteressado, a criação de beleza. Fazer dinheiro e inundar as nossas vidas de bens materiais cada vez mais trivializados é uma paixão profundamente vulgar e inane. Pode ser que, de modos agora muitos difíceis de discernir, a Europa venha a gerar uma revolução contra-industrial, assim como gerou a própria revolução industrial. Certos ideais de lazer, de privacidade, de individualismo anárquico, ideais quase apagados pelo consumo conspícuo e pelas uniiformidades dos modelos americano-asiático, poderão ter a sua função natural num contexto europeu, mesmo que esse contexto implique uma certa medida de apetrechamento material."
Página 54 e 55

"Se os jovens ingleses escolhem classificar David Beckman acima de Shakespeare e Darwin na lista de tesouros nacionais, se as instituições culturais, as livrarias e as salas de concertos e teatro lutam pela sobrevivência numa Europa que é fundamentalmente próspera e onde a riqueza nunca falou tão alto, a culpa é muito simplesmente nossa. Assim, como o poderia ser a reorientação do ensino secundário e dos meios de comunicação, por forma a corrigir esse erro. " 


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