quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Silêncio de Scorcese

A euforia dos Óscars anda aí e mais uma vez  o prémio desiludiu-me nas suas nomeações ou melhor nas sua não nomeações. Porém Silence (2016) por Martin Scorcese foi nomeado. 
À frente disso, gostava de falar do filme que estreou recentemente. 

O romance de Endo ocorre num período em que o cristianismo estava gravemente em perigo no Japão. O acolhimento inicial dos missionários estrangeiros pelo Shogunato, que permitiu o estabelecimento de seminários e conversões em massa, foi seguido por uma contestação oficial após a Rebelião de Shimabara (1637-38) e a perseguição de clérigos e leigos. 

Frente à ameaça de morte, dois sacerdotes jesuítas recém-chegados de Portugal, Rodrigues e Garupe (interpretados no filme por Andrew Garfield e Adam Driver, respectivamente), entram no Japão para investigar os relatos de que seu mentor, Ferreira (Liam Neeson) Apostatado sob coação. Ali, eles testemunham em primeira mão a fé dos cristãos japoneses - ou a fé fracassada, como no caso de seu guia, Kichijiro (Yosuke Kubozuka) - bem como a perseguição enfrentada pelas mãos do inquisidor Inoue (Issey Ogata), que supervisiona uma cerimonia formalizada de renúncia em que os católicos são convidados a atropelar a imagem esculpida de Cristo.








Baseado na obra literária (que estou a ler) com o mesmo nome e de Shūsaku Endō. É a história de dois padres portugueses que vão para o Japão do século XVII à procura do seu mentor e na procura da verdade sobre a sua possível morte ou não!


Quando chegam lá dão conta de um Japão devastado, fechado sobre si mesmo e onde os Cristãos não podiam existir e são perseguidos pela inquisição japonesa.
As actividades de evangelização foram iniciadas em 1549, um dos primeiros a chegar foi Francisco Xavier e depressa no tempo, cerca de 300 mil japoneses tinham-se convertido.


Porém, o poder da altura começou a ver o papel dos missionários como ameaçador, porque eles acreditavam mais nas palavras, opiniões do Papa, para tomar as suas decisões do que em si próprios. 
Nesse sentido foi banido do território japonês todo e qualquer sinal cristão. E a sua celebração era completamente proibida, dando assim origem aos Cristão Escondidos (kakure kirishitan). São estes que os dois missionários encontram e com eles começa toda uma busca pela fé. 





De alguma forma o que tentei escrever foi a sinopse do filme. Mas na verdade mais pode ser dito. Tenho quase a certeza que li em qualquer lado que Scorcese demorou 28 anos a realizar este filme. O livro foi escrito em 1966 e pelos vistos fez parte da lista de Scorcese e daí a sua adaptação ao cinema. 

No seu todo, temos uma obra poética sobre a procura de nós mesmos. A necessidade de acreditar no ser superior para pensarmos que a nossa existência tem mais noticiabilidade. Mas o existencialismo vai na percepção do que podemos encontrar na luz ou nas trevas. Traçando uma análise que acreditar é uma decisão que manifesta na realidade em silêncio. Pois se pensarmos bem,  mesmo para aqueles que acreditam, deus nunca falou com ninguém pessoalmente e que esteja vivo. 

A verdade é que este filme ganha mais sabor por estar de alguma forma inserida no melhor momento da História portuguesa. 
Nós descobrimos o mundo, com outros, principalmente espanhóis e holandeses. Tentamos daí evangelizar a palavra de deus em território desconhecido. 
Durante o filme ouvimos algumas palavras em português que em pronuncia anglo saxônica não cai muito bem, mas é assim.

Nós não temos que olhar duro para encontrar em Silence, que se une a The Last Temptation of Christ (1988) e Kundun (1997) no subconjunto de filmes de Scorsese que falam explicitamente sobre as variedades da experiência religiosa. 




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Everyman, de Philip Roth

Pensar sobre a morte nunca vai ser fácil. Pensar sobre aquilo que já nos está impingido à partida no nosso nascimento. É uma ambiguidade na vida que temos. 
Mas a verdade é que enquanto vivemos nunca pensamos muito sobre a morte, preocupamo-nos mais em viver.  
Por isso é interessante ler, por vezes, livros sobre o tema em questão. Neste caso falo de Everyman (2006) de Philip Roth. 



Ao começar a ler o livro tornou-se obrigatório saber mais sobre o seu autor. Roth é um dos escritores mais premiados da sua geração. Incluindo um Pulitzertrês PEN/Faulkner Award e um Franz Kafka Prize
Eu não sei exatamente o que significa tantos prémios na literatura, mas sinto que algo de bom deverá ser. Principalmente para quem procura  no meio uma forma de refúgio. 
Novamente Roth, tem uma forma de escrever sobre a sua particularidade, uma forma de escrita autobiográfica. E ao mesmo tempo uma forma filosófica e insolente de formalmente distorcer a realidade da ficção. Por outro lado não teme pelas palavras e atira com os palavrões como se fossem palavras que se utilizassem em todas as circunstâncias. 
Tem uma  forma de escrever diabólica.  O livro é uma metáfora entre a morte e a ciência? Foi o que pensei a certa altura da leitura!

A forma de escrever está patente numa liberdade machista. Que fala da morte com prazer macabro, porque a consegue contextualizar, em certa parte do livro, com um tempo de guerra. 
Por outro lado generaliza e fala do poder económico dos judeus, mas também o que eles sofreram na guerra. Pode ser uma metáfora? Perguntei-me! O judaísmo faz parte da sua tradição familiar, daí notar-se essa marca na escrita. 

No livro que fala sobre a morte de uma pessoa, provocada por uma doença hereditária, a morte assume-se como se a doença fosse simbólica da maldição sobre todos os seres vivos. A morte é inevitável.  
A forma como Roth descreve a doença (logo o mal inevitável) e vai avançando. Como faz com que a personagem mude de personalidade. Como descreve a sua força de viver e a forma como ela é sugada pelo vírus de uma doença, capaz de uma dor angustiante.  Manifesta na dor pelas palavras mais simbólicas com a podridão a que todos chegamos. Uma forma muito emotiva que o escritor tem de descrever o processo da morte. Ou as várias formas que ela pode manifestar. Num monólogo quase imperceptível. Que nos toca particularmente. Obriga-nos a pensar.

E pensamos sobre essa escriba grotesca de um momento real de submissão humana a algo que o controla e faz ter este tipo de comportamento. O escritor não tem medo de usar palavras fortes, capazes de chocar pela realidade a que transmite. Uma forma de Roth provocar o leitor. Pois todo o livro é provocativo. 
Referencia a uma parte do livro, no momento em que fala do amigo que faleceu. Pois é preciso fazer um jogo de memória. Relembrar o que já foi lido, mas ao mesmo tempo chegar a uma recordação de vida em que percebeu - percebemos -  o que é a morte. A forma como se tem que lidar com ela. No momento em que ela nos bate à porta.

A vitalidade do amor numa pessoa doente. É uma pessoa viciada no fazer bem às pessoas doentes através da obtenção de prazer sexual. Uma forma terapêutica que o autor descreve de forma soberba neste excerto. 
He was not the first patient to fall in love with his nurse. He was not even the first patient to fall in love with


Maureen. She'd had several affairs over the years, a few of them with men rather worse off than he was, who, like him, made a full recovery with the help of Maureen's vitality. Her gift was to make the ill hopeful, so hopeful that instead of closing their eyes to blot out the world, they opened them wide to behold her vibrant presence, and were rejuvenated.
A forma grotesca de como descreve a morte. Aquilo que nos faz sentir ao ler estas palavras.
But she was pale with helplessness and couldn't stop the tears from running down her face: she wanted her father to be the way he was when she was ten and eleven and twelve and thirteen, without impediment or incapacity – and so did he.


A perda da beleza natural com o percurso natural da idade. Conforme ela avança vamos mudando as prioridades. O que dantes nos preocupava era o aspeto exterior, numa idade mais avançada o que interessa é o interior.
Manifestação de raiva pela família na forma como ele existiu. Quase como se afirmasse que tudo que levou àqueles momentos não podia ter-se passado de outra forma. Temos que aceitar a vida como ela é. Ou melhor, como ela se desenvolve com as nossas ações e decisões.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake

O filme vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes I, Daniel Blake (2016) é um manifesto ao fim da vida ajuntada com a burocracia das sociedades que vivemos.
A história centra-se em Daniel Blake, um homem que depois de uma vida de trabalho, vê-se preso no desconhecimento da evolução tecnológica e o que isso se torna um problema para ele. 
A sua figura simples contrasta com a complexidade daquilo  que lhe pode tirar tudo até a dignidade.
Mas mesmo sem ela, consegue entrar na vida de uma família e ser pai e avô ao mesmo tempo.






Ken Loach já é a segunda vez que recebe a Palma de Ouro, depois de a ter conseguido com The Wind That Shakes the Barley (2006). É um realizador focado no socialismo  e a que cada parte, em particular, se desenrasca naquele todo.
A sociedade é um todo composto para suster a vida normalizada. Mas ao olhar para cada unidade em particular, percebemos o que pode ser uma injustiça sobre o que foi dado e o que foi recebido.
Em suma, o filme foca-se de forma quase documental na vida de uma pessoa que podia ser qualquer um de nós. Uma pessoa que vive na sociedade, mas a sociedade parece não viver para ele. Denuncia aquilo que existe em todos os países, entre as pessoas mais pobres e incapazes por vezes de sobreviver. É o mundo em que vivemos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Proust Era Um Humorista

Marcel Proust (1871-1922) foi um escritor françês, cuja obra prima é o colossal Em Busca do Tempo Perdido tendo como título original  À la Recherche du Temps perdu . Uma obra de sete volumes escrita por Proust e alguns dos seus volumes foram publicados após a sua morte solitária, pois nesta altura da sua vida , vivia completamente isolado.
Esta personalidade assenta também num homem homosexual que pertencia há burguesia francesa. Que viveu com o problema da Asma desde criança e é considerado um dos maiores romancistas do século XX.





The Lemonine Affair (Pastiches et mélanges (1919) aparece num período em que Proust ainda socializava e frequentava os saloon da Mme Straus. O livro é escrito na forma da arte novella ou como está escrito no titulo original Pastiches. 
O conteúdo do livro é o escândalo causado por Henri Lemoine, o homem que afirmou que conseguia produzir diamantes a partir do frio. 
Na verdade é que ele conseguiu mesmo que pessoas investissem no seu projeto e um deles foi mesmo Marcel Proust.
O absurdo da situação é explorada por Proust nesse sentido. Escreve na forma literária de outros escritores franceses como Flaubert e Balzac. Até moca dele mesmo.

“Like a bouquet, they brought Lucien the news, presenting me with the denouement of the already
“sketched play, that their friend Marcel Proust had killed himself after the fall in diamond shares, a collapse that annihilated a part of his fortune. A curious person, Lucien assured us, that Marcel Proust, a being who lives entirely in the enthusiasm, in the pious adoration, of certain landscapes, certain books, a person for example who is completely enamored of the novels of Léon Daudet. A”



É uma leitura pequena mas extensa nas ideias. Percebe-se a capacidade de descrição de Proust. Talvez uma característica que se possa encontrar noutros livros do escritor. Outra é  a particularidade de escrever sobre factos da sua vida pessoal. 
Foi uma boa introdução ao autor, pois nunca tinha lido dele nada antes. Um dos pontos mais negativos do livro tem a ver com as personagens ou o desconhecimento que temos delas.
A maioria delas pessoas com peso activo na história francesa. Então, para quem não sabe nada da história de frança é muito complicado.
Por essa razão, antes de ler o livro, será aconselhável tentar saber mais da história do país do croissant.
Porém a capacidade de Proust encarnar outros escritores e brincar com isso é mesmo literatura absurda.   

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Homem no Castelo Alto

Philip K. Dick (1928-1982) foi um escritor que dizem que mudou a forma de ver a ficção científica na literatura. Embora o seu reconhecimento tenha vindo pos mortem, as adaptações ao cinema de alguns dos seus livros, elevou-o a outros patamares.
Não seja demais dizer pelo filme Blade Runner (1982) realizado por Ridley Scott e que ganhou uma legião de fãs por causa da sua estética e linguagem cinematográfica. Adaptado do livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968).  Filme que vai ter uma sequela no próximo ano e conta novamente com Harrison Ford.

Philip K. Dick

Porém, depois desta apresentação do autor, quero passar a falar da  web série The Man In The High Castle (2015) produzida pela Amazon em cooperação com a Scott Free e que a segunda temporada estreou no início deste mês. 
Adaptada do livro de Dick com o mesmo nome, a série de ficção científica distópica desenrola-se numa realidade onde a Alemanha Nazi e o Japão, o eixo, ganharam a Segunda Guerra Mundial e são os dois impérios que dominam o Mundo. Particularmente dividem o território norte americano: sendo a costa do pacífico dominada pelos japoneses e a costa atlântica dominada pelos nazis. Estes detêm a capacidade de produzir a bomba atómica. Pois com ela ganharam a grande guerra, lançando uma sobre a capital dos Estados Unidos da América, Washington D. C.  


Lançado em 1963 o livro ganhou o prémio Hugo e foi recebido pela crítica como bastante inovador para a época. Não podendo opinar sobre o livro, porque ainda não o li e nem sei se vou ler. Posso apenas falar sobre a série.
Não tenho conhecimento profundo sobre as séries que a Amazon tem produzido. Na verdade creio que é a primeira que vejo produzida pela multinacional retalhista. 
Porém sei que esta é das mais faladas pela imprensa e meios de comunicação, fazendo com que seja das séries com mais audiência produzida pela Amazon. 
Na minha opinião esta série vem fechar o ano com chave de ouro, num mesmo onde a ficção científica teve uma excepcionalidade com séries como The Stranger Things da Netflix ou Westworld  da HBO. 
O romance na novela envolta em esoterismo realista do que podia ser a realidade. Encontra no meio do cinema a passagem do conhecimento necessário para salvar o mundo de uma aniquilação nuclear. 


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Árabe do Futuro

A coisa mais surpreendente sobre The Arab of the Future: A Childhood in the Middle East, 1978–1984, é a devida devastadora memória gráfica de Riad Sattouf e dos seus primeiros sete anos de vida, e que ele conseguiu escrevê-lo e publicá-lo sem ser morto. 
Nascido em Paris em 1978, filho de um pai sunita sírio e mãe Britânica, Sattouf cresceu na Líbia, na França e na Síria. A sua infância é o tema do seu livro. 




Sabemos que, quando adulto, voltou para a França, desenhou um livro de quadrinhos sobre a circuncisão quando tinha oito anos, fez um filme satírico chamado Jacky no Reino das Mulheres (ambientado num país islâmico fictício com papéis sexuais invertidos) e, até pouco antes do massacre em Paris, trabalhou para o Charlie Hebdo, onde foi o único cartunista de origem árabe. 

Em suma, sabemos que Sattouf escolheu a França sobre a Síria. Lá, ele escreveu e desenhou o Árabe do Futuro, uma dura crítica das suas experiências nas sociedades que deixou para trás, colocando tudo isso em uma picaresca memória gráfica contada a partir do ponto de vista de uma criança. 

O primeiro volume deste livro, publicado inicialmente em francês como L'Arabe du Futur, ganhou o prémio principal no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême em 2015 e o Los Angeles Times Book Prize para melhor graphic novel






Ele concentra-se principalmente na relação entre Riad pequeno e o seu pai, Abdel-Razak, um professor com ambições de trazer iluminação, educação e unidade para os seus companheiros árabes. O segundo volume  centra-se na escola religiosa de Riad na Síria. 
Em um nível, estes dois volumes são a lembrança detalhada, desenhada com grande economia e humor, de uma criança observadora.  Como ele é arrancado da Líbia  para a França e, finalmente, para a Síria.


Ao longo do caminho, obtemos um relato na primeira pessoa da brutalidade da Síria sob Hafez al-Assad e a Líbia sob Muammar Kadafi. Mas como o título sugere, o árabe do futuro pode ser lido muito mais amplamente. 
Sugere uma história de duas culturas, duas civilizações, dois modos de vida - Europa versus Médio Oriente , Ocidente versus Oriente. E serve, de facto, como um relato atento e justificativo da escolha final de Sattouf de viver na França. Um tema atual no mundo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A Idade Adulta é um Mito

Sarah's Scribbles  é uma webcomic que inicialmente se chamou Doodle Time e que depois de ser sindicalizado pela GoComics passou a ter o nome atual.  Adulthood Is a Myth (2016) é um livro retrato autobiográfico de Sarah Andersen que resultou numa coleção ilustrada com os Doodles da cartunista.



Andersen, explora as fraquezas da idade adulta focando o ridículo e por vezes frustrantes acontecimentos que se passam nessa fase da vida.  
Andersen é uma excelente caricaturista - algumas das suas mais engraçadas linhas são painéis de rostos sem expressão, de olhos arregalados. 
Muitos dos seus desenhos mostram o que se pode chamar de problema de introvertidos, sendo por isso que a maior parte dos leitores são pessoas que sofrem de introvertismo. 
Por essa razão, nota-se na autora uma capacidade de capturar pequenas partes da vida que são muito muitas vezes esquecidas e raramente se falam sobre elas. 
Como muitos comediantes talentosos, grande parte do seu melhor material vem dos aspectos desconfortáveis ​​e até embaraçosos da vida. 
Tiras que envolvem a ansiedade social em todas as formas, incluindo a depilação do corpo e o desempenho nos media social.  






Este livro é para todos nós. Estes quadrinhos documentam o desperdício de belos fins de semana na Internet; a agonia insuportável de segurar as mãos na rua com um homem lindo; sonhar o dia todo em voltar para casa e vestir o pijama, e perguntar quando exatamente essa coisa da idade adulta começa. Em outras palavras, os horrores e constrangimentos da vida moderna jovem.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

As Seis Inovações que Mudaram o Mundo.

Vamos lá tentar esclarecer uma coisa, eu não conhecia Steven Johnson. Este é o primeiro livro que estou a ler escrito por ele. Mas a verdade é que encontro na escrita dele uma forma de entender o mundo de forma diferente.
Uma nova forma de entender a História, a ciência, a tecnologia e o evolucionismo que isso leva à prosperidade da raça humana. É um dos temas deveras esquecido, mas importante. 



Uma das coisas que mais gosto quando leio um livro, vejo um filme, é que no fim de cada um há uma mensagem que me sensibilizou e modifica a minha forma de entender a realidade em que vivo.
Quero dizer, o sentido de História para mim é entendido segundo as normas que me ensinaram na escola. 
Seja ela a primária, básica, secundária e académica ou universitária! A história é baseada em factos e é através desses factos que nos é ensinado o sentido de História.
Não passa de uma decisão! Seja ela tomada por instituições que nos regulam ou de uma forma mais pessoal, seja a decisão que tomamos em acreditar. 
Não interessa, somos moldados segundo a decisão do que é importante entender em sociedade como História.
Em How We Got to Now: Six Innovations That Made the Modern World (2014), de Steven Johnson, encontramos uma outra forma de olhar para o passado e entender como as ideias surgem e como elas são transformadas em inovação tecnológica que mudou a Humanidade. 
Mais fascinante é como está explicado no livro como algumas das ideias/invenções que tornaram o mundo mais moderno, aconteceram por acaso ou acidente. 
É uma marca da escrita do autor, que examina conexões inesperadas entre campos aparentemente não relacionados: como a invenção do ar-condicionado permitiu a maior migração de seres humanos na história da espécie para cidades como Dubai ou Phoenix, que de outra forma seriam praticamente inabitáveis.
Acompanhado por uma importante série de televisão em seis partes da PBS,  este livro é a história de redes colaborativas construindo o mundo moderno, escrito num estilo provocativo, informativo e envolvente. 

Peitoral em ouro com pedras semipreciosas e pasta de vidro, com escaravelho alado, símbolo de ressurreição, no centro, do túmulo do Faraó Tutankhamun

O livro é longo, denso e por vezes monótono, mas é engrandecido por ser uma autêntica enciclopédia de conhecimento alternativo ao standard das sociedades modernas. 
O autor apresenta o paradigma do hummingbird effect: uma inovação, ou aglomerado de inovações, numa determinada área acaba por provocar mudanças que parecem pertencer a um domínio completamente diferente. Esses efeitos vêm em variadas formas. Alguns são bastante intuitivos: aumentos de ordens de grandeza na partilha de energia ou informação tendem a pôr em movimento uma onda caótica de mudança que surge facilmente sobre as fronteiras intelectuais e sociais. Basta olhar para a história da Internet nos últimos trinta anos. 
Em seis capítulos ficamos a saber as seis inovações que fizeram o mundo moderno.  Como um jornalista do Wall Street Journal escreveu:

In “Cold,” we move from air conditioning, to the flocking of American retirees to the now habitable Sunbelt, to the shift of political power from north to south. Freezing leads him to the creation of sperm banks, which have given many more women the opportunity to conceive and changed our notions of marriage and parenthood. “Sound” begins in the reverberating cave dwellings of Paleolithic man in Burgundy and ends up with the ultrasound technology being used to determine the sex of unborn children. “Clean” takes us from Chicago’s sewer system, the first urban system in America, to the growth of household cleaning products like Clorox and the hyper sanitized plants where microchips are made.


Las Meninas por Diego Rodríguez de Silva Velázquez



Em suma, este livro é mais que um livro. É um autêntico documento que permite ter uma outra perspectiva sobre a inovação. A visão neo criacionista/tecnológica de Steve Johnson analisa seis grandes inovações que mudaram o mundo. Mas também permite perceber que essas inovações surgiram por um lado depois anos, séculos de tentativa e erro  - o método científico -; e por outro por acaso, por acidente da causalidade casual. 
Na conclusão do livro, ele fala dos Time Travellers, ou as pessoas que pensaram em algo extraordinariamente progressivo, capaz de inovar, transformar ou até mesmo mudar o mundo. O curioso é que normalmente essas pessoas estão à frente do seu tempo.
Indivíduos capazes de pensar em algo out the box para a época em que vivem. A analogia moderna surge, obviamente a Steve Jobs e numa frase descreve o espaço onde contemporaneamente surgem as melhores ideias: 
The garage is the space for the hacker, the tinkerer, the maker. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ida, Tag...

Ida (2013) de Pawel Pawlikowski é daqueles filmes em que descrever a experiência de o ver é complicado. Expor por palavras o que o filme contém não chega, é preciso mesmo ver para sentir a plenitude do mesmo. Pois são tantos os pormenores que ele contém que podemos admirar, saborear, contemplar e mesmo assim vamos ter dificuldades em o explicar. 
É mais uma obra cinematográfica tocada por uma linguagem cinematográfica plena, com destaque para o uso da luz num formato preto e branco.
Aliás esse é um dos pormenores que mais se destaca no filme: o uso da luz em apenas duas cores, com captação do som ambiente, nunca utilizando o recurso à banda sonora para preencher o espaço.
Um filme altamente premiado, incluindo um Óscar e BAFTA na categoria para Melhor Filme Estrangeiro em 2015.






De alguma forma,  lembrei-me imediatamente do filme de Michael Haneke, The White Robbin (2009). Mas os filmes só são parecidos pelo uso da técnica utilizada por cada um dos realizadores, o preto e branco. Bem como a narrativa se desenvolver num tempo semelhante. Encontram-se também contornos culturais que moldam as sociedades e logo as pessoas. 
Nos dois filmes são mostrados os monstros que as pessoas escondem nas gavetas da sua memória. E demonstram pesadelos acontecidos e o impacto desses nas suas vidas.
São ambos filmes com preocupações filosóficas, que através da sétima arte tentam expor a perspetiva de cada realizador influenciados pelo meio onde nasceram. 
Ambos os dois filmes são merecedores da marca de cânone.





Especialmente na obra do realizador polaco, a metamorfose da personagem principal é como Barabbas, que depois de uma experiência traumática, entra numa fase de negação.
Aqui, Ida tem necessidade de conhecer o mundo e a vida como elas realmente são depois de descobrir que toda a sua vida foi moldada pela ganância de pessoas.
Há um impacto entre o estilo de vida moderno e a vida vivida segundo os princípios religiosos.
Nota-se a influência de gostos pessoais e formas de pensar sobre o mundo em geral de forma diferente.
A forma como vemos o mundo muitas vezes está escondido na nossa imaginação e na forma como ela retrata certas histórias que fomos ouvindo.
Então se forem histórias do passado, a nossa imaginação tem mesmo que ser levada à sua capacidade máxima de representação de sentido na nossa razão.
Por isso mesmo, esta obra serve perfeitamente para nos contextualizar naquele tempo negro da história europeia e num país que mais sofreu com esse monstro do passado.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Criada

Depois de Old Boy (2003), este é o trabalho cinematográfico de Chan - wook Park que literalmente vem mais uma vez demonstrar que o cinema pode ser usado de forma sublime e magistral em toda a sua técnica. 
The Handmaiden (2016) é daquelas obras de arte que foi construída num tempo, num contexto e num espaço que faz dela uma obra única e intemporal da sétima arte.
Todo o filme leva a linguagem cinematográfica ao extremo, seja na questão de geometria no enquadramento, caracterizado pela simetria na composição dos planos. Pela utilidade da construção de diferentes atmosferas criadas pelas cores escuras e a luz em contraste com as cores. Pelo uso do guionismo na criação de uma narrativa surpreendente. 
O filme é um triller erótico que conta a história de uma mulher que vai trabalhar para uma casa de uma família da Coreia do Sul, no tempo ocupada pelo Japão. 








Para mim o filme é uma lufada de ar fresco nos filmes que tenho visto ultimamente e a verdade é que não têm sido muitos. Mas este foi uma surpresa profundamente agradável em que a experiência estética evocou todos os meus sentidos  em emoções provocadas pelas imagens. É uso da estimulação das sensações ao seu máximo através do uso da linguagem cinematográfica
Uma agradável viagem psicológica pela libido e erotismo. Este é o clímax do filme: o uso da imagem e som para provocar em nós excitação no que estamos a ver, ouvir a sentir. 
A tal serendipidade da arte que nem é instintiva, nem um sub produto da nossa evolução. Mas sim uma fusão das duas, encaixada com forças sociais, culturais.
Pergunto-me como esta obra será analisada daqui a 20 anos? 
Muito poderia deambular sobre esta obra prima, mas o melhor mesmo é ver. 



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Infeliz Acidente da Arte

Neste livro, intitulado The Aesthetic Brain: How We Evolved to Desire Beauty and Enjoy Art (2013) de Anjan Chatterjee, temos uma visão sobre a arte e como ela funciona num todo orgânico no nosso cérebro.
A leitura foi feita de uma forma lenta, porque o tema também é um sobre o qual gosto de refletir. A reflexão obrigou a que tivesse que fazer outro tipo de abordagem. Por isso tentei colocar-me na primeira pessoa na análise ao mesmo. Para que as ideias ficassem incutidas de uma forma mais profunda, esta resenha é baseada em excertos do livro que considero importantes reter.

No livro o autor assume uma teorização científica. Porque normalmente, a objectividade assume uma forma quantitativa.  E traduzir experiências estéticas, aparentemente transcendentes, em números é crítico para uma abordagem experimental à estética. Ou seja, informações precisam de ser quantificadas, hipóteses precisam de ser testadas e reivindicações precisam de ser replicadas ou falsificadas. 
Aqueles são os fundamentos básicos sobre o qual o progresso em ciência é construído.
No entanto, é esta abordagem que é necessária para haver uma ciência da estética. Talvez porque a experiência estética e uma propriedade emergente de componentes diferentes, que não podem ser derivados a estudar as suas partes.




Por isso, o autor fala no livro sobre os encontros estéticos e não sobre a condição para acontecer tais encontros. Nesse sentido, poupa-nos às conclusões científicas que caracterizam essa escrita. 
Assim, o neurocientista coneta a estética psicológica evolutiva com a neurociência. Focando-se sobre o cérebro e os quadros que ajudam melhor a compreender a estética interligando aquelas duas áreas científicas para melhor iluminar o caminho labiríntico da beleza, prazer e arte. 


A ideia básica da psicologia evolutiva é que as nossas faculdades mentais ou biologia evoluíram para melhor potencializar as nossas hipóteses de sobrevivência. Partindo deste paradigma, o autor fala de como as experiências agradáveis levantam a questão do que significa ter uma experiência estética?

Nesse sentido responde que no cérebro, os nossos sistemas emocionais de prazer estão alojados em estruturas profundas, distantes da superfície. Juntamente com outras estruturas mentais de sobrevivência. Por essa razão existe um paradoxo: nós evoluímos as nossas respostas à beleza porque elas foram úteis para a nossa sobrevivência, no entanto essas respostas estéticas supostamente não devem ser úteis à nossa sobrevivência! Gostamos do que nós queremos e queremos o que quisermos. Uma linguagem inata no nosso sistema evolutivo. 

O que podemos querer sem gosto? Chatterjee dá o exemplo da droga, ou como os drogados se tornam dependentes da droga, ao ponto de  não "sobreviverem" sem elas. O vício é o protótipo do estado antiestético. 

A experiência estética, segundo o autor deve-se a uma tríade das nossas faculdades: sensações, emoções e entendimento. Este último assume maior importância, porque leva-nos a perceber como a arte pode ser evolutiva. Por exemplo, as pinturas impressionistas hoje em dia adoradas pelo público em geral, inicialmente foram vistas com renitência. A mudança aconteceu na ligação entre os sistemas de recompensa com base no nosso conhecimento e experiência e percepções específicas. 

Essa flexibilidade pelos quais os componentes se combinam em conjuntos estéticos é parte do que faz arte e estética experiências ricas e mesmo imprevisíveis. Assim, os estudiosos falam da evolução da arte em duas diferentes perspectivas: ou tomam a arte como instinto ou como um subproduto evolucionista. 

Partindo destes dois paradigmas, Chatterjee procura no livro dar uma terceira perspetiva sobre a experiência estética e arte. Nesse sentido, fala-nos da serendipidade (feliz acidente) da arte, isto é, os objetos de arte despertam reações que podem nos dar prazer, mas não têm obrigação de o dar. Mesmo que a maioria das pessoas associem beleza com arte, muitas das vezes, a arte não tem que ser bela para dar prazer, pode mesmo ser feia. 

Por outras palavras, o neurocientista explica que a arte contemporânea pode evocar combinações complexas de emoções. Por exemplo, a arte revolucionária, tudo que possa ser criado pelo entendimento da fé, na meditação sobre comportamentos obsessivos, incita-nos a lutar contra sistemas opressivos. Veja-se o exemplo de  Ai Weiwei, considerado pela Art Review como um dos artistas mais influentes da atualidade. Como apontam os teóricos expressionistas da arte: a arte pode comunicar emoções, nuances que são difíceis de transmitir em palavras e se transformam na raça do coração. 


Snapshot do site de Ai Weiwei


A neuroestética, àrea em que autor leciona,  mostra que o cérebro não tem um módulo dedicado há estética ou arte no cérebro. Nós não temos nenhum receptor estético específico e análogo aos nossos receptores de visão, tacto ou olfacto. Como também não temos também nenhuma emoção estética ao medo, ansiedade ou felicidade,  como também à memória, linguagem ou acção. 

Em vez disso, aponta que as experiências estéticas envolvem flexíveis conjuntos neurais dos sistemas sensoriais, emocionais e cognitivos. Essa flexibilidade incorpora os conjuntos do que faz a arte e a estética imprevisíveis.  
A arte está em toda a parte e existe de uma forma profunda  há milhares de anos. A universalidade da arte torna improvável que seja um subproduto de outras capacidades cognitivas evoluídas. 

E é nesta parte que a reflexão atingiu o seu êxtase. Pois a leitura deu-me uma nova perspetiva para pensar sobre a arte. O poder da arte é a sua capacidade de mover-nos e fazer-nos experimentar temas antigos com novos olhos, é transmitido através da sua expressão local. 
O conteúdo da arte é moldado por condições locais: a cultura em que nasce, os seus antecedentes históricos, as condições económicas da sua produção e recepção e referências relevante para o seu tempo e lugar. 
A arte é uma coleção bagunçada de adaptações e é repleta de modificações e plug-ins formado por episódios históricos e nichos culturais. 
Quando as pressões culturais selecionam tipos específicos de arte, a arte produzida cai dentro de limites estilizados estreitos. Quando as pressões seletivas culturais são relaxadas, a arte floresce. Não temos um único instinto artístico. Temos instintos que desencadeiam um comportamento artístico. Em vez de ser dominado pelos instintos, é o relaxamento do controle instintivo que permite à arte expressar-se plenamente. 

A arte germina instintivamente e amadurece. O seu conteúdo é uma mistura  nascida de tempo e lugar e cultura e personalidade. 
Poderia ser de outra maneira? Ser privado de uma grande teoria instintiva de arte unificadora não é motivo de preocupação. Em vez disso, a natureza diversa, local e serendipidade da arte é o que nos pode  surpreender, iluminar, forçar-nos a ver o mundo de forma diferente, . Quando estamos livres, relaxamos na arte. É um feliz acidente natural e inato. 
   

Reaprender

 Nunca é fácil quando conhecemos uma pessoa. Principalmente se por essa pessoa começarmos a sentir sentimentos.  É uma roda viva de emoções ...